terça-feira, dezembro 28


Quando te sentires perdida, confusa, pensa nas árvores, lembra-te da forma como crescem. Lembra-te de que uma árvore com muita ramagem e poucas raízes é derrubada à primeira rajada de vento, e de que a linfa custa a correr numa árvore com muitas raízes e pouca ramagem. As raízes e os ramos devem crescer de igual modo, deves estar nas coisas e estar sobre as coisas, só assim poderás dar sombra e abrigo, só assim, na estação apropriada, poderás cobrir-te de flores e frutos.
E quando à tua frente se abrirem muitas estradas e não souberes a que hás-de escolher, não metas por uma ao acaso, senta-te e espera. Respira com a mesma profundidade confiante com que respiraste no dia em que vieste ao mundo, e sem deixares que nada te distraia, espera e volta a esperar. Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te, e vai para onde ele te levar.



Susanna Tamaro, Vai Aonde Te Leva o Coração

sexta-feira, dezembro 17


"A alma não teria arco-íris se os olhos não tivessem lágrimas."


*John Vance Cheney*

Uma casa não tem sentido se ninguém nos espera.

CARPINEJAR

Telha de Vidro


Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha…
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô…
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha…


A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro…
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade…


Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que — coitados — tão velhos
só hoje é que conhecem a luz do dia…
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa…
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.


Que linda camarinha! Era tão feia!
— Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão…
Por que você não experimenta?
A moça foi tão bem sucedida…
Ponha uma telha de vidro em sua vida!


Rachel de Queiroz
"...los bosques serían un lugar muy silencioso
si solo los mejores pájaros cantaran"


Henry Van Dyke



Há um poema em cada amigo
custa descobri-lo
precisa tempo, distância
comunhão, exílio


A magia custa a florir
como os versos simples
O inesquecível está na mão
mas o braço
é um longo caminho
entre a ponta de um dedo
e o coração.


Nei Duclós

Maria de Verdade



Pousa-se toda Maria
no varal das 22 fadas nuas lourinhas
Fostes besouro Maria
e a aba do Pierrot descosturou na bainha

Farinhar bem, derramar a canção
Revirar trens, louco mover paixão
Nas direções, programado e emoldurado
Esperarei romântico

Sou a pessoa Maria
Na água quente e boa gente tua Maria
Voa quem voa Maria
e a alma sempre boa sempre vou à Maria

Farinhar bem, derramar a canção
Revirar trens, louco mover paixão
Nas direções, programado e emoldurado
Esperarei romântico

Tou vitimado no profundo poço
na poça do mundo
do céu amor vai chover
Tua pessoa Maria
Mesmo que doa Maria
Tua pessoa Maria

Farinhar bem, derramar a canção
Revirar trens, louco mover paixão
Nas direções, programado e emoldurado
Esperarei romântico

Tou vitimado no profundo poço
na poça do mundo
do céu amor vai chover
Tua pessoa Maria
Mesmo que doa Maria
Tua pessoa Maria


Carlinhos Brown


Tem pena,
Senhor,
tem carinho especial com as pessoas muito lógicas,
muito práticas,
muito realistas,
que se irritam
com quem crê
no cavalinho azul.


Dom Helder Câmara

segunda-feira, dezembro 13







Mãos

Longas de desejo

Frescas de abandono

Consumidas de espanto

Inquietas de tocar e não prender.

.
Sophia de Mello Breyner Andersen





Despe-te

como o orvalho

na concha da manhã.


Eugénio de Andrade

domingo, dezembro 12


Desejo que cada pessoa que tiver um Natal Feliz
possa fazer feliz o Natal de muitas outras!!




É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia

Eugénio de Andrade
Eu quero
que você
se sinta
a pessoa
mais feliz
do mundo,


a única capaz de ser pra mim um sonho em noite de insônia.


Cazuza

ilustração: Marina Faria




'É burro cantar coisas que eu, tu, ele, nós sentimos?

É brega ter desejos e carências e dores e suspiros assim, de gente?

Sentir não é brega. Ao contrário: não existe nada mais chique'

[caio f]



O profundo silêncio das flores

é um lugar de ausência.

Vazia moldura para o voo das aves,

linha oscilante de ligeira névoa

que nada revela do que talvez esconda.


Egito Gonçalves


[Este es el tiempo
el tiempo del amor]


Ya alegra la campiña
la fresca primavera;
el bosque y la pradera
renuevan su verdor.
Con silbo de las ramas
los árboles vecinos
acompañan los trinos
del dulce ruiseñor.
Este es el tiempo, Silvio,
el tiempo del amor.

Escucha cual susurra
el arroyuelo manso;
al sueño y al descanso
convida su rumor.¡
Qué amena está la orilla!¡
Qué clara la corriente!
¿Cuándo exhaló el ambiente
más delicioso olor?
Este es el tiempo, Silvio,
el tiempo del amor.

Más bulla y más temprana
alumbra ya la aurora;
el sol los campos dora
con otro resplandor.
Desnúdanse los montes
del duro y triste hielo,
y vístese ya el cielo
de más vario color.
Este es el tiempo, Silvio,
el tiempo del amor.

Las aves se enamoran,
los peces, los ganados,
y aun se aman enlazados
el árbol y la flor.
Naturaleza toda,
cobrando nueva vida,
aplaude la venida
de mayo bienhechor.
Este es el tiempo, Silvio,
el tiempo del amor.

Tomás de Iriarte, s.XVIII



'Então, se já consegue me ver por dentro, por que insiste em ter medo do lado de fora?
Por que ter medo da minha casca?
Eu não mordo, a não ser que você peça.
Eu dobro as suas roupas e posso rir da sua cueca engraçada.
Posso contribuir com o seu humor matinal e posso fazer amor, posso fazer guerra.
Posso te deixar em paz.
Mas você tem que me prometer me deixar maluca todos os dias'


[Naiane Feitoza]


Debruça-te, amor
e colhe-me a manhã

bebe-me o hálito
morde-me os gemidos

eu sou o copo
de cicuta
(o vinho)

com o qual envenenas
os sentidos


Maria Teresa Horta

Cosi-te a mim

em poema

bordadas

as palavras

fios de vida


João Rui de Sousa


“A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá

mas não pode medir os seus encantos.

A ciência não pode calcular

quantos cavalos de força existem nos encantos de um sabiá.

Quem acumular muita informação

perde o condão de adivinhar: divinare.

Os sabiás divinam. ''

MANOEL DE BARROS

«Eu sou insaciável;
mal um desejo surge,
outro desponta,
e em mim há sempre latente
a febre do sonho e do desejo,
e quando possuo alguma coisa de infinitamente consolador,
[como é a sua amizade,
desejo mais,
mais ainda,
mais sempre!
Conhece-se em mim o afecto, o amor, a ternura por um egoísmo implacável
que quer tornar muito meus,
e só meus,
os corações que se me dedicam um pouco.
Dá isto muitas vezes
o resultado de me suceder
o mesmo que sucedeu ao cão
que largou a presa pela sombra,
pois querendo muito,
muito perdeu.»



Florbela Espanca

Eu entro nesse barco, é só me pedir.
Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou.
Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso
preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou.
Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando
em torno de mim mesma.Mas olha, eu só entro nesse barco
se você prometer remar também!
Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes.
Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito,
vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer
que vai remar também, com vontade!
Mas você tem que remar também.
Eu desisto fácil, você sabe.
E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos,
mas eu entro nesse barco, é só me pedir.
Perco o medo de dirigir só pra atravessar
o mundo pra te ver todo dia.
Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir.
Mas a gente tem que afundar junto
e descobrir que é possível nadar junto.
Eu te ensino a nadar, juro!
Você tem que me prometer
que essa viagem não vai ser a toa,que vale a pena.
Que por você vale a pena.
Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar.



Caio fernando Abreu


O mundo é mágico.

As pessoas não morrem, ficam encantadas.


João Guimarães Rosa

Que fiques boa depressa
de alergia ou qualquer dor,
mas que nunca sares dessa
doença de amar-me, Amor!


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, dezembro 3


Na espera havia perdido a força das coxas,
a dureza dos seios,
o hábito da ternura,
mas conservava intacta a loucura do coração

Gabriel Garcia Marquez


Sou dessas mulheres sinuosas, de colo curvilíneo e sorriso enluarado.
Em mim perdem-se e acham-se os sonhos.
De medidas extremas. Tanto no outono quanto na primavera.
Gosto de gostar.
Gosto do prazer, sou tátil, feminina.
Sim, admiro a beleza longilínea e vertical, mas herdei a horizontalidade esteatopígea.
Não caibo em padrões.
Respiro livre, sem a rigidez imposta por aí.
Invisto meu tempo em outros prazeres : dedico-me a ser feliz.
Porque para o amor há sempre uma pessoa de medidas certas.
E, se meus seios cabem em suas mãos,
então sou (só) para você.
É por isso que, como cantou Ana Carolina, prefiro ser
destas mulheres prá comer com dez talheres.

Solange Maia


"Que lindos olhos, que lindos olhos tem você
Que ainda hoje, que ainda hoje eu reparei
S’eu reparasse, s’eu reparasse a mais tempo
Eu não amava, eu não amava quem amei."


Que lindos olhos, Villa-Lobos




"Por fora, já desistiu. Por dentro, sempre descobre alguma desculpa para recomeçar."


(Fabrício Carpinejar)



wonderland
(I'll use my hands)


A casinha do monte

Moça, já ergui lá no monte uma casinha pequena
Fiz uma rocinha pra gente
Ter uma fonte de renda
Que ainda este ano
Você vai, você vai morar comigo.
Moça, já plantei um jardim
Com as mais belas flores
Pedi pra lua e as estrelas abençoar
Nossas noites de amores
Que ainda esse ano você vai
Você vai morar comigo.
Sou um roceiro apaixonado
Tenho muito pouco pra lhe oferecer
Mas o amor maior do mundo lá na roça moça
Tá guardado pra você
Sou um roceiro apaixonado
Já arrumei pra nós dois sobreviver
A casinha lá no monte tá enfeitada moça
Esperando por você.

San Marino



quarta-feira, novembro 24


''Amor para mim é doideira, descontrole, soluço de árvore na estrada. Andar de cadarços desamarrados, levar os ciscos e as ervas para a casa. Arrastar as folhas e o solo. Varrer a rua em direção à casa, em movimento inverso. Sujar a casa de mundo, de premência.

Invejo quem programa seu casamento com antecedência, com dois ou três anos de noivado. Nunca fui assim, de fazer maquete, de brincar de casa de boneca, de planejar cada passo. ...
Invejo quem só casa após segurança financeira. Amor nunca me concedeu segurança.
Invejo quem condiciona o enlace a uma lua-de-mel no exterior.
Que seja na saúde e na doença de cara, na alegria e na tristeza de cara.

Relâmpago não é tão bonito sem chuva. Relâmpago sem chuva pede esmola. Quero a chuva junto do clarão, o marulhar das calhas, a água nas escadas das telhas.
Sou do amor fulminante, como um enfarte. Perder a razão. Casar na hora, em dias, esquecer que não era possível, esquecer as dificuldades, esquecer os entraves e pormenores. Não dar tempo para criar problemas. Não dar tempo para ponderar com opiniões dos próximos. Não aceitar conselhos de ressaca, decidir ébrio e arrepender-se amando. Ultrapassar-se.
Não sei como montei minha casa. Amor junta os pertences, não reclama. Faz funcionar o que não existe. Deixo a demora para Deus, sou mesmo apressado em mim para ser lento no corpo dela.
Invejo quem faz lista de presentes em lojas e recebe metade da casa mobiliada depois da aliança na mão esquerda. A aliança nem conheceu minha mão direita. Mal cumprimentou. Não recebi nada que está em casa, não tive poupança, fundos de investimento. Recebo os amigos. Sobrevivi, pois precisava. Não há desculpa para sobreviver.
Invejo quem premedita o casamento, conhece os pais dela devagarinho, faz as reivindicações antes do contrato, briga por teimosia e capricho pelo tom das paredes e marca dos ladrilhos. Que escolhe a cor do cachorro para combinar com o capacho.
Não consigo.
Caso para quebrar as regras, para me aproximar no ato, para não deixar o inferno dourar a pele. Entro no primeiro apartamento e fico. Os livros já são estantes. Ponho o colchão no chão e subo devagarinho com os meses.
Caso rápido porque nunca fui sozinho dentro de mim, porque a saliva é água potável, porque amor é urgência.
Ajeita-se a vida como pode. Um dia a menos não será depois um dia a mais. Caso em segredo, a dois. Beijo tem muito despudor para ter medo.
Não me exibo, caso. Não faço futuro, caso logo para fazer passado.


CARPINEJAR

''- Que importa o mal que te atormenta,
se o sonho te contenta
e pode realizar-se?''

(do filme Cinderela)


- No meu não vai ter pedra, só mar'

Caio F.



sábado, novembro 20

A complicada arte de ver





Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.

Por isso _porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

Rubem Alves

sexta-feira, novembro 12


No início
já havia tudo.
Mas Deus era cego
e, perante tanto tudo,
o que ele viu foi o Nada.
Deus tocou a água
e acreditou ter criado o oceano.
Tocou o chão
e pensou que a terra nascia sob os seus pés.
E quando a si mesmo se tocou
ele se achou o centro do Universo.
E se julgou divino.
Estava criado o Homem.


Mia Couto

I Bruise Easily





Perguntou se uso os amigos e disse, logo, sim.
Uso os amigos como fazem as flores e as cores.
Quando uma vai embora, morrem as duas.

Zef




que flor é esta,
que perfuma assim
toda a floresta?


Carlos Seabra





“O problema não é a saudade viver batendo,

o problema sou eu viver apanhando.”

Tati Bernardi



terça-feira, novembro 9


A Medida Da Paixão
Lenine/dudu Falção






É como se a gente
Não soubesse
Prá que lado foi a vida
Por que tanta solidão?
E não é a dor
Que me entristece
É não ter uma saída
Nem medida na paixão...

Foi!
O amor se foi perdido
Foi tão distraído
Que nem me avisou
Foi!
O amor se foi calado
Tão desesperado
Que me machucou...

É como se a gente
Pressentisse
Tudo que o amor não disse
Diz agora essa aflição
E ficou o cheiro pelo ar
Ficou o medo de ficar
Vazio demais meu coração...

Foi!
O amor se foi perdido
Foi tão distraído
Que nem me avisou
Nem me avisou!
Foi!
O amor se foi calado
Tão desesperado
Que me maltratou...

terça-feira, novembro 2

Só encontro minha fé quando perco algo

Carpinejar





" Mal-me-quer, pensou com tristeza,
vendo a última pétala.
Depois lembrou que não tinha pensado em ninguém,
e ficou ALEGRE outra vez. "

Caio F.Abreu



Hoje te canto e depois no pó que hei de ser
Te cantarei de novo. E tantas vidas terei
Quantas me darás para o meu rosto outra vez amanhecer
Tentando te buscar. Porque vives de mim, Sem Nome,
Sutilíssimo amado, relincho do infinito e vivo
Porque sei de ti a tua fome, tua noite de ferrugem
Teu pasto que é o meu verso orvalhado de tintas
E de um verde negro teu casco e os areais
Onde me pisas fundo. Hoje te canto
E depois emudeço se te alcanço. E juntos
Vamos tingir o espaço. De luzes. De Sangue.
De escarlate.


Hilda Hilst

Como disse o mestre Leminski


lamente
uma
____vez

“As folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes”.


Manoel de Barros


Este teu monitor é o quadrado mundo que impede o navegante de ir além-mar.
Fosse redondo eu poderia entrelaçar os meus dedos nos teus
ou, quem sabe, buscar o horizonte onde divisam teus olhos.
Mas nem os olhos me fariam alcançar,
pois como as vidas, escondidas,
que amanhecem e entardecem além do olhar,
um abraço não se enxerga e sonhos um olhar não conta.
Ao mundo que ultrapassa o além-mar dos teus olhos:
abraçar é preciso.

Rita Apoena


Nós nascemos, por assim dizer, provisoriamente, em algum lugar;
pouco a pouco é que compomos, em nós, o lugar de nossa origem,
para lá nascer mais tarde e, a cada dia, mais definitivamente.


Rainer-Maria Rilke


Alguém baixou com suavidade minhas pálpebras,
me levando, desprevenido,
a consentir um sono ligeiro,









eu que não sabia que o amor requer vigília.




Raduan Nassar

Elegancia é tudo aquilo que é belo,
seja no direito, seja no avesso.


Coco Chanel