quinta-feira, julho 2



Som de celo
Alice Ruiz



Você tem o dom

de pôr som de celo

onde havia gelo

quem dera tê-lo

você e teu dom

de transformar esse silêncio

num solo de celo

quem dera descobrir

teus zelos véu por véu

descobrir talvez um novo céu

e nele vê-lo

entre as estrelas

cobrir você

com meus cabelos

quem dera este celo

não fosse tão solo

quem dera você para sê-lo
Um Real De Amor
Zeca Baleiro


O que eu não faço em tua companhia
Amamos na praia ao nascer do dia
O que eu não faço em tua companhia
Dançamos na rua ao nascer da lua

Com um real de amor que tu me dás
Faço versos de febre e de paixão
Pego a fraca miragem da ilusão
E a transformo em ferro e em carvão

Com um real de amor que tu me dás
Faço a flor na mais completa escuridão
Desafio o terror da solidão
E a transformo em pó na multidão

O real de amor que tu me dás
Generoso se faz em minha mão
Mata a minha fome
E multiplica o pão








Subentenda-me

Não ouça o que estou dizendo

Ouça o que eu quero dizer

Em tom sublime

Frases subliminares

Intenções segundas

Terceiras

Diversas

Múltiplas...

Leia!

Está escrito

em minha testa

Talhado com canivete...

Leia meus lábios

mudos

e surdos

Interprete meus sinais

Leia minha mente

criptografada

Hieróglifos

Decifra-me

(ou devoro-te)

Descobre-me

(e conquista-me)

Desvenda-me

Abra os olhos

desse pobre falso cego...

Abra teus olhos

E olhe em meus olhos

Me olhe na cara!

(Qualquer uma das duas!)

Não ouça o que estou dizendo

Ouça o que eu quero dizer

Subentenda-me

Jefferson de Souza – do "Blog de 7 Cabeças"



Na volta que o mundo dá
(Vicente Barreto e Paulo César Pinheiro)

Um dia eu senti um desejo profundo
De me aventurar nesse mundo
Pra ver onde o mundo vai dar

Saí do meu canto na beira do rio
E fui prum convés de navio
Seguindo pros rumos do mar

Pisei muito porto de língua estrangeira
Amei muita moça solteira
Fiz muita cantiga por lá

Varei cordilheira, geleira e deserto
O mundo pra mim ficou perto
E a terra parou de rodar

Com o tempo
Foi dando uma coisa em meu peito
Um aperto difícil da gente explicar

Saudade, não sei bem de quê
Tristeza, não sei bem por que
Vontade até sem querer de chorar

Angústia de não se entender
Um tédio que a gente nem crê
Anseio de tudo esquecer e voltar

Juntei os meus troços num saco de pano
Telegrafei pro meu mano
Dizendo que ia chegar

Agora aprendi por que o mundo dá volta
Quanto mais a gente se solta
Mais fica no mesmo lugar


Pergunta-me

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

Mia Couto

Eu não sou da sua rua,
Eu não sou o seu vizinho.
Eu moro muito longe, sozinho.

Eu não sou da sua rua,
Eu não falo a sua língua
Minha vida é diferente da sua

Estou aqui de passagem.
Esse mundo não é meu,
Esse mundo não é seu

arnaldo antunes

Ne Me Quitte Pas.
Não me Deixes (Tradução).


(Jacques Brel).

Não me deixes,
Não me deixes,
É preciso esquecer,
Tudo se pode esquecer
Que já para trás ficou.
Esquecer o tempo dos mal-entendidos
E o tempo perdido a querer saber como
Esquecer essas horas,
Que às vezes mata,
A golpes de porque,
o coração de felicidade.

Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes.
Te oferecerei
Pérolas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove;
Escavarei a terra
Até depois da morte,
Para cobrir teu corpo
Com ouro, com luzes.
Criarei um país
Onde o amor será rei,
Onde o amor será lei
E você a rainha.

Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes.
Te Inventarei
Palavras absurdas
Que você compreenderá;
Te falarei
Daqueles amantes
Que viram de novo
Seus corações ateados;
Te contarei
A história daquele rei,
Que morreu por não ter
Podido te conhecer.

Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes.
Quantas vezes não se reacendeu o fogo
Do antigo vulcão
Que julgávamos velho?
Até há quem fale
De terras queimadas
A produzir mais trigo;
Que a melhor primavera
É quando a tarde cai,
Vê como o vermelho e o negro
Não se misturam
Para que o céu se inflame.

Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes.
Não vou chorar mais,
Não vou falar mais,
Escondo-me aqui
Para te ver
Dançar e sorrir,
Para te ouvir
Cantar e rir.
Deixa-me ser a sombra da tua sombra,
A sombra da tua mão,
A sombra do teu cão.

Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes.

quarta-feira, julho 1


Na língua dos pássaros uma expressão tinge a seguinte.

Se é vermelha tinge a outra de vermelho.

Se é alva tinge a outra dos lírios da manhã.

É língua muito transitiva a dos pássaros.

Não carece de conjunções nem de abotoaduras.

Se comunica por encantamentos.

E por não ser contaminada de contradições

A linguagem dos pássaros

Só produz gorjeios.


Manoel de Barros in Retrato do artista quando coisa




Eu te conheço
Você não é daqui
Esperei você aparecer
Para me deixar sem ar
E me fazer chorar
Você não é daqui
Não daqui
Só um toque seu
E eu posso voar... e eu vôo....e eu vôo




Amor vivo



Amar! Mas dum amor que tenha vida...

Não sejam sempre tímidos harpejos,

não sejam só delírios e desejos

duma doida cabeça escandecida...




Amor que viva e brilhe! Luz fundida

Que penetre o meu ser - e não só de beijos

dados no ar - delírios e desejos -

mas amor... dos amores que têm vida...




Sim, vivo e quente! E já a luz do dia

não virá dissipá-lo nos meus braços

como névoa de vaga fantasia...




Nem murchará o sol à chama erguida...

Pois que podem os astros dos espaços

contra uns débeis amores...se têm vida?


Antero de Quental
Amizade nossa ele não queria acontecida simples, no comum, sem encalço.
A amizade dele, ele me dava.
E amizade dada é amor.

João Guimarães Rosa in Grande Sertão: veredas






E o tempo tomou forma. Assim me soube
Envolta em grande mar até a cintura
E nada a não ser água e seu rumor
Aos ouvidos chegava. E soube ainda
Que um só gesto e sopro acrescentava
Essa vastíssima matéria. E atenta
Em consideração a mim, cobri-me de recuos.
Eu, que de docilidade me fizera.
Antes avara desse tempo que resta.
Se em muitos me perdi, uma que sou
É argamassa e pedra. Guardo-te a ti.
Em consideração a mim. Redescoberta.

Hilda Hilst in O tempo tomou forma

terça-feira, junho 30

Tango

Que diabos faço aí?
Eu me afundo ao fundo de ti.
Que horas são? Que fogo me afoga?
É dia ou noite? Eu não sei!
Minha pele se cola ao rubro de teu sangue que se move
e que flui em direção a mim
Eu danço e me debato

Envolvo meus tornozelos em volta de ti
minhas pernas se dobram,
eu contorno teus quadris,
sobre minha cintura executas tua vingança
Imploro em vão, mas tu mesmo ris
uma sede se sacia
Eu danço ou me debato? Eu não sei, eu não sei...

Tango, mi amor
tu me fazes mal e minha sina
é o bem que me devora
quando meu corpo se contorce
Tango, mi amor, caça ou caçador
Um de nós dois é mais forte
Tango, mi amor

Mas a dúvida se estabelece,
me sinto como em fuga
a vida me empurra na corrida,
meu corpo que te repele
Teus gestos me lembram que
tu não tens sobre mim o direito que eu te devo
Eu danço e me debato

Mas como dizer de quem, de quê, de quem eu sou?
Quando pertencer somente a ti é o desafio
E se eu te dissesse que não há mais somente tu
Eu danço e tu te debates, eu danço e tu te debates!

Tango, mi amor
tu me fazes mal e minha sina
é o bem que me devora
quando meu corpo se contorce
Tango, mi amor, caça ou caçador
Um de nós dois é mais forte
Tango, mi amor

Tango, meu corpo não te pertence ainda
e se minh'alma dele sai
Meu corpo, ele, se contorce.
Tango Tango...


segunda-feira, junho 29


Não indagues muito: é cruel querer saber
Que fim nos reservaram os deuses;nem
Fiques consultando os números babilônios.
Pode ser que Júpiter te conceda muitos invernos,
Ou somente este último, como expressa agora
o mar tirreno ao bater nas rochas.
Sê sensato, bebe teu vinho e abrevia as longas esperanças,
Pois o tempo foge enquanto aqui falamos.
Curte o dia de hoje – não te fies no futuro!

Horácio - Quintus Horatius Flaccus
poeta e filósofo romano .Viveu de 65 a.C a 8 a.C.
Ah, deixa a agüinha das grotas grutejar sozinha!

João Guimarães Rosa



Vaidosa

de Cesário Verde

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo por aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.

Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério

Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração, como as estátuas.

E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.

Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces
És tão loira e doirada como as messes
E possuis muito amor…
Muito amor-próprio!


Amigos, nada mudou
em essência.

Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais,
testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há recordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote,
e a primavera chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se divideme as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.

affonso romano de sant'ana