quinta-feira, dezembro 11


teu presente???
lhe darei uma flor de cristal e uma gota de meus pensamentos azuis....
quero ver seus olhos enfeitados com a serenidade do céu..
pode ser?
bjos.w

quarta-feira, dezembro 10



Que o Papai Noel traga tudo de bom que você pediu

e mais alguma coisa que você esqueceu...





Tropecei no alfabeto logo ao nascer, caí no verbo
Invejei poetas, dizeres ímpares
Palavras seculares, versos românticos
Invoquei-os
Não ouvi respostas
Apenas o eco do silêncio
Percebi então que faço melhor do que eles
Aprendi a florir flores
A salgar o sal e a adoçar o doce com a entrega de palavras
Que ainda não nasceram
As mesmas que me habitam a alma
Aplaudi-me
Percebi que melhor que ser poeta,
É ser palavra


Mia Couto

CHEGANÇA


Oswaldo Antônio Begiato


Eu te trouxe de presente um olhar.
Um olhar que achei escondido entre as pedras do rosário
E que brincava de encantamento com a Virgem Maria.
Eu te trouxe de presente um olhar.
Desses que não descuidam de nenhum movimento
E que de tão atentos se tornam anjos da guarda.
Eu te trouxe de presente um olhar.
Desses que contém dentro de si tamanha proteção
Que os olhos deles parecem um mar de cheganças.
Eu te trouxe de presente um olhar.
Desses que revelam uma entrega tão desmedida
Que se tornam portas de entrada de todas as abnegações.
Eu te trouxe de presente um olhar.
Apenas um olhar. Nada mais, além do meu servo olhar




Enquanto faço o verso

Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.

Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.

O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:

MORRE O AMOR DE UM POETA.

E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.

Hilda Hilst

"A alma de uma clareira é o rouxinol."

- Karen Blixen


Se perdida no céu
Me restasse apenas uma asa
Essa asa seria você

Se soterrada em minhas ruínas
Com apenas um filete de luz
Esse filete seria você

Se esquecida pelos deuses
Eu corresse por uma ilha
Essa ilha seria você

E se mesmo inútil,
Restasse um limite frágil,
Eu o atravessaria...

Imortal, imortal
Eu sinto ser aquela
que sobreviverá à todo esse mal
Eu morro por sua causa

Imortal, imortal
Eu me desprendi no fim do céu
Ele não abrigava mais a eternidade
Eu morro por sua causa

Se as palavras são marcas
Eu marcarei minha pele
com aquelas que não são ditas

E porque nada te apaga,
Eu guardarei este mal
se é apenas ele que resta...

Estará tudo bem ao dizer pra mim
que nada valeu a pena...
Todo este "nada" é meu!

Para que pode me servir
encontrar o destino
se ele não me leva à você?

Imortal, imortal
Eu sinto ser aquela
que sobreviverá à todo esse mal
Eu morro por sua causa

Imortal, imortal
Eu me desprendi no fim do céu
Ele não abrigava mais a eternidade
Eu morro por sua causa

Eu morro por sua causa...

Imortal... imortal....
Imortal.......

terça-feira, dezembro 2

Na língua dos pássaros uma expressão tinge a seguinte.
Se é vermelha tinge a outra de vermelho.
Se é alva tinge a outra dos lírios da manhã.
É língua muito transitiva a dos pássaros.
Não carece de conjunções nem de abotoaduras.
Se comunica por encantamentos.
E por não ser contaminada de contradições
A linguagem dos pássaros
Só produz gorjeios.

Manoel de Barros


Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão

Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá

Vem andar e voa !

Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar



Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção



Tem um verdadeiro amor
Para quando você for

Vem andar e voa

Vilarejo – Marisa Monte



"Para mim a vida é tudo menos uma chama fugaz."

George Bernard Shaw


Tropecei no alfabeto logo ao nascer, caí no verbo
Invejei poetas, dizeres ímpares
Palavras seculares, versos românticos
Invoquei-os
Não ouvi respostas
Apenas o eco do silêncio
Percebi então que faço melhor do que eles
Aprendi a florir flores
A salgar o sal e a adoçar o doce com a entrega de palavras
Que ainda não nasceram
As mesmas que me habitam a alma
Aplaudi-me
Percebi que melhor que ser poeta,
É ser palavra


Mia Couto

segunda-feira, dezembro 1

Os meninos humildes crescem no chão
que é o melhor lugar para crescer.
Tu vais crescer no chão
sobre as pedras da eira que há na tua casa.
Há também uma pinheira grande.
Aprenderás a brincar com as sombras da pinheira
olharás uma pinha cair no calor e rolar pelas ervas.
Hás-de apanhá-la nas tuas mãos
e atirá-la num gesto descuidado.
Em Agosto virão os pombos pousar na pinheira
Poderás acompanhá-los ao longe no seu voo preciso, calculado.
Ao partir - verás que sempre se demoram pouco -
vais compreender que há em todas as coisas uma nervura débil
e à sua volta se desenha um anelo fugaz
onde dançam cores formas pontos e fantasmas.
Tudo aparece e desaparece
se fechares os olhos e logo os abrires
já não verás o mesmo: um movimento de seda passou entretanto
levando a poeira dos instantes e deixando em ti
uma sombra a esvoaçar sem objecto.
Aprenderás que essa sombra é a saudade.
Há um viveiro de plantas à beira do caminho
que vem da tua casa.
É na curva larga do caminho, no campo que lhe fica sobranceiro.
Lá crescem tílias bétulas faias e catalpas
e cedros e plátanos, e o pequeno ácer.
Verás como crescem devagar
se vestem e despem de folhagem
e depois são levadas para junto das casas.
Estou feliz por ti
vais guardar todas estas coisas no teu coração humilde.
Crescerás no chão que é o melhor lugar para crescer
crescerás com ternura.

Nuno Higino

domingo, novembro 23


Aquela mandante amizade. Eu não pensava em adição nenhuma, de pior propósito. Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços (...)



João Guimarães Rosa in Grande Serão: veredas.

quinta-feira, novembro 20

Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos...
...
Mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.

Mario Benedetti



quarta-feira, novembro 19


Você me tirou pra dançar
Sem nunca sair do lugar
Sem botar os pés no chão
Sem música pra acompanhar

Cláudio Lins


Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

Manuel de Barros in Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo

Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo

Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo
que não digo

Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei não te persigo

Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo

Maria Tereza Horta

Amor é
... ver-te chegar num eco de ave,
e deixar que me prendas
com o teu gesto mais suave,
sentir-te, só, ao pé de mim,
e sentir-me tão só longe de ti...

Nuno Júdice, Geometria Variável

Um anjo entrou pela minha janela
Sussurrou ao meu ouvido
Uma canção suave e bela
Trouxe o perfume de flores celestiais
E o brilho aveludado da luz
De mil castiçais
Quero bailar com o anjo
Ao som da flauta ou do banjo
Quero toda a angelical melodia
Lançando purpurina ao meu dia

de Úrsula A. Vairo Maia


Laço de Fita

Vocês trazem laço de fita para a minha vida
Onde o embrulho e o laço é o abraço
De dois amigos preciosos: Bernadette e Rene
Renasço a cada palavra amiga cercada de abraço

Meus dois amigos têm laço de barbante enrodilhado
Quando o problema bate a minha porta eles estiram
O laço um de cada canto deste Rio Grande do Sul
Eles são bons laçadores e são gaúchos e amigos meus

Por ter amigos como vocês gineteio a vida
No lombo do meu destino com destreza
E com o laço firme e largo eu abraço os dois amigos
Na arte da poesia com o laço da amizade.

Obrigada por serem meus amigos
(Graciela da Cunha)
18/11/08
(Dedico a Bernadette Moscareli e Rene Oliveira)




terça-feira, novembro 18


Os olhos são o espelho da alma.
E se isso, verdade é,
deixe-os serem a janela,
e veja por um instante
minha alma de mulher.

Vê a borboleta
que em doces volteios
acaricia suave, seus cabelos?

São meus dedos.

Feche os olhos e sinta.
Ao som suave da brisa,
minhas carícias que
vão lhe envolvendo.

Sinta o toque na pele,
que traçando seu rosto
vai descendo mansinho
em direção ao seu peito.

São meus beijos.

Sente o roçar pela cintura,
como asas de libélula voejando?
É minha língua.
Vou adentrando.

Das vestes, já liberto,
sinta o tempo de agosto
que vai molhando seu corpo.

Estou provando seu gosto.

Segure de leve, pressionando,
minhas ancas
transformadas em rédeas,
enquanto vou cavalgando.

Fica assim...
Parado a sentir
o veludo úmido lhe envolvendo.


Você está dentro de mim.

Rápido...
Vem comigo!
Vamos chegar ao fim...

Agora abra lentamente seus olhos.
Sinta a vida transformada
em seiva que de seu corpo flui.

Não me procure.
Como a tarde dessa primavera

Eu já fui...

Asta Vonzodas

segunda-feira, novembro 17

Esta vez dejadme
ser feliz,
nada ha pasado a nadie,...

... dejadme
en tu boca...
ser feliz,
ser feliz porque si, porque respiro
y porque tú respiras,...

Hoy dejadme...
ser feliz,
con todos o sin todos,
...
ser feliz,
contigo, con tu boca,
ser feliz.

Pablo Neruda


... Mas eu deito-me no teu leito
quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu...

Mia Couto



”… Queres saber quem eu sou? Eu sou o que te olha e espia para te recolher e depois guardar num lugar que é só meu. Para isso serve o papel. O resto não precisas de saber. Nem convêm. Só te ia distrair, podes crer. Eu sou o que mergulha as mãos na tua vida para sentir a minha a voltar …”

“… Por vezes gosta-se de uma mulher por não haver outra por perto de que se possa gostar. Por vezes gosta-se de uma mulher por se ter gostado muito de um homem que deixou de gostar de nós e precisamos de tudo tentar para o esquecer. Por vezes gosta-se de uma mulher por lembrar outra mulher de quem se gostou e não descobrimos quem possa ter sido. Por vezes gosta-se de uma mulher por se estar muito cansado de se gostar muito de uma outra mulher. Por vezes gosta-se de uma mulher só por gostar. Às vezes ele escrevia uma colecção de disparates que lhe juntava para oferecer. Às vezes ela ria, outras vezes não…”
”… Por vezes gosta-se de um homem só porque faz falta para ir ao cinema. Por vezes gosta-se de um homem só porque o corpo tem intermitentes exigências. Por vezes gosta-se de um homem só porque não se gosta de outro. Por vezes gosta-se de um homem só porque nos faz rir. Por vezes gosta-se de um homem só. Às vezes ela escrevia frases que depois lhe lia. Ela ria. Ele ficava muito sério a ouvir, a tentar descobrir em que caso cabia…”

”… É tão estranho conhecer uma pessoa. Tão dificil que parece impossivel. Não existir e passar a existir: uma pessoa inteira, um mundo inteiro. Onde caberá um mundo inteiro neste mundo pequenino? Como é que se consegue? Como se faz?…”
apagar 11 nov (6 dias atrás)
”… É preciso que saibas que, entre a liberdade e a segurança, a grande maioria não escolhe a liberdade. A liberdade precisa da coragem de lutar com o medo, sem a certeza de o vencer. E o medo existe sempre, ontem, hoje e amanhã, e a coragem é tão rara como o espirito que ama a liberdade…”

”… Por que queres tu que os meus lábios sejam só teus? Porque só eles são iguais aos teus…”

”… E para que serve o amor, diz-me já. Serve para perder o medo…”

“Muito, meu amor” - Pedro Paixão

Espero

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner




Te propongo esta noche
llegar a un acuerdo,

un diálogo entre mi cuerpo y tu cuerpo
una conversación sin palabras,
...
Te propongo un pacto de susurros,
una tertulia de gemidos,
un monólogo de gritos,
que todo lo que no dijimos
en la piel permanezca escrito...

Gloria Bosch
Ao dizer que te amo é
como se as portas da vida se
abrissem, e uma luz nascida de dentro
do desejo de ti me trouxesse
até mim. Mas ao dizer
que te amo, são as portas
da noite que se fecham, e é
contigo que espero a última
madrugada, onde entre
mim e ti
nenhumas portas existam.

Nuno Júdice




De longe te hei-de amar,
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância...

Cecília Meireles

O amor me pegou...

domingo, novembro 16


A dança…

Eu lhe mandei meu convite,
a nota inscrita na palma da minha mão pela
chama da vida.
Não dê um salto gritando: “Sim, é isso que eu quero!
Vamos em frente!”
Apenas se levante em silêncio e dance comigo.

Mostre-me como você segue seus desejos mais profundos,
descendo em espiral em direção à dor dentro da dor,
e lhe mostrarei como eu me volto para dentro e me
abro para fora
para sentir o beijo do Mistério, doces lábios sobre
os meus, todos os dias.

Não me diga que você quer encerrar o mundo inteiro
no seu coração.
Mostre-me como você evita cometer outra falta sem
se desesperar quando sofre uma agressão e tem medo de
não receber amor.

Conte-me uma história sobre quem você é,
e veja quem eu sou nas histórias que estou vivendo.
E juntos nos lembraremos que cada um de nós sempre
tem uma escolha.

Não me diga que as coisas serão maravilhosas… um dia.
Mostre-me que você é capaz de correr o risco de ficar
completamente em paz,
totalmente à vontade com a maneira como as coisas são
neste exato momento,
e também no momento seguinte, e no seguinte…

Já ouvi histórias demais sobre a audácia heróica.
Conte-me como você desmorona quando
esbarra no muro,
o lugar que você não pode transpor pela força
da sua vontade.
O que conduz você para o outro lado desse muro,
para a frágil beleza da sua condição humana?

E depois de mostrarmos um ao outro como definimos e
mantivemos os limites claros e saudáveis que nos
ajudam a viver lado a lado um com o outro,
vamos correr o risco de lembrar que nunca deixamos de
amar em silêncio aqueles que um dia amamos
em voz alta.

Leve-me para os lugares do planeta que ensinam
você a dançar,
os lugares onde você pode correr o risco de
deixar o mundo partir seu coração,
e eu conduzirei você aos lugares onde a terra debaixo
dos meus pés
e as estrelas no céu fazem meu coração ficar inteiro
de novo, e de novo.

Mostre-me como você cuida dos negócios
sem deixar que eles determinem quem você é.
Quando as crianças estão alimentadas mas as vozes
internas e as externas
gritam que os desejos da alma têm um preço alto demais,
vamos lembrar um ao outro que o que importa
não é o dinheiro.

Mostre-me como você oferece ao seu povo e ao mundo
as histórias e as canções que você quer que os filhos de
nossos filhos recordem,
e eu revelarei a você como eu me empenho,
não para mudar o mundo, mas para amá-lo.

Sente-se do meu lado e compartilhe comigo longos
momentos de solidão,
conhecendo tanto a nossa absoluta solitude quanto o
nosso inegável pertencer.
Dance comigo no silêncio e no som das pequenas
palavras cotidianas,
sem que eu me responsabilize no fim do dia por
nenhum de nós dois.

E quando o som de todas as declarações das
nossas mais sinceras
intenções tiver desaparecido no vento,
dance comigo na pausa infinita antes da grande
inalação seguinte do alento que nos sopra a
todos na existência,
sem encher o vazio a partir de dentro ou de fora.

Não diga “Sim!”.
Pegue apenas a minha mão e dance comigo.

Oriah Mountain Dreamer

domingo, novembro 9


A única verdade


a única verdade é a linha que puxo na extremidade da
[agulha
ponto a ponto desenho
a paciência refaço os gestos
das minhas avós
quantas coisas se passavam na cabeça das mulheres
[em seu estrado
em seus olhos dobrados
e eu que nunca tive paciência


mas quem fui bem vedes que o não sou já
e pois que não tenho armas para ofender
faço desenhos de flores brilhantes com linhas
de seda paciente
é tudo o que posso fazer
com os olhos dobrados
na noite que não pára de crescer
Soledade Santos

a nossa verdadeira história

...E uma noite estávamos a dar um concerto no topo de uma colina, eu estava a cantar e, a meio de uma canção, ouvi um som totalmente novo e pensei: “Ena! O Peter é um excelente músico, está sempre a inventar coisas novas incríveis.” Mas depois olhei para o Peter e vi que as mãos dele não coincidiam minimamente com o ritmo daquele som. Ele estava a tocar uma coisa completamente diferente. E por fim a canção estava quase a acabar, faltavam apenas algumas notas e já só restava a minha voz, para além daquela pequena e maravilhosa melodia. E então percebi que vinha de uma árvore próxima do palco, um pouco além do sítio onde eles tinham pendurado os holofotes coloridos .
Era uma coruja, uma corujinha, e estávamos as duas a cantar um dueto e eu pensei: “Posso morrer neste preciso instante, porque a vida jamais será melhor do que isto.” E continuámos a cantar durante mais algum tempo e lá em baixo havia uma multidão de seres humanos – sentados no escuro – a ouvir, a ouvir. E depois começou tudo a andar para trás. E eu senti o cheiro de uma certa coisa. E nós sabemos o dia em que compreendemos que jamais contaremos a nossa verdadeira história. A nossa própria história. É nesse dia que a nossa vida começa. Boa noite, uma mesa para cinco mil pessoas, por favor.

Laurie Anderson

ADAGIO




Eu não sei onde encontrar você
Eu não sei como procurar você
Eu ouço sua voz no vento
Eu sinto você sobre minha pele
Dentro do meu coração e da minha alma
Eu espero por você
Adagio

Todas essas noites sem você
Todos os meus sonhos envolvo você
Eu vejo e toco seu rosto
Eu caio nos seus braços
Quando o tempo é certo, eu sei
Você estará em meus braços
Adagio

Eu fecho meus olhos e encontro um caminho
Não precisa rezar por mim
Eu andei tanto
Eu lutei tanto
Nada mais a explicar
Eu sei que tudo o que restará
É um piano que toca

Se você sabe onde me encontrar
Se você sabe como me procurar
Antes que as luzes se apaguem
Antes que eu perca minha fé
Seja o único homem a dizer
Que você ouvirá meu coração
Que você me dará sua vida
Que você ficará pra sempre

Não deixe que as luzes se apaguem
Não Não Não Não Não Não
Não deixe que eu perca a fé
Seja o único homem a dizer
Que você acredita
Me faça acreditar
Que você não vai embora
Adagio
ADAGIO

Amora de tronco gris,
Dá um cacho para mim.
Sangue e espinhos.
Aproxima-te.
Se me queres, querer-te-ei.
Deixa teu fruto de verde e sombra
Na minha língua, amora.
Que longo abraço te daria
Na penumbra de meus espinhos..
Amora, aonde vais?
Vou buscar amores que tu não me dás.

Federico García Lorca


Petalas
Alceu Valença


As borboletas voam sobre o meu jardim
São cores vivas, pousam sobre às onze horas
Nas rosas claras, violetas e jasmins
Um beija-flor traindo a rosa amarela
Beijou a bela margarida infiel
Papoula e dália estão cravadas de ciúmes
E o beija-flor beijando flores a granel
Pétalas, asas amareladas
Pétalas, espinho seco
Folha, flor, lagarta
Pétalas
As flores voam e voltam noutra estação
Só serei flor quando tu flores no verão



Meninas passeiam seus vestidos de mãos dadas. Despertam curiosidades nos olhares salivantes dos moços viris e das boquiabertas senhorinhas. Bailarinas da sedução, borboleteiam imaginações alheias porque desabitaram as convenções do amor público pra se libertarem da camisa-de-força com etiqueta.

Meninas são líquidas de águas temperadas. Ultrapassaram os epílogos do prazer pra mergulhar na emergência do ardor com afeto.E, delicadas na carícia sem ingenuidade, confundem-se no abraço das pernas enveredadas pela malícia da fome.E, na dança dessas deusas líricas,o roçar de seios e o beijo de todos os lábios.
Meninas passeiam por aí, lúdicas, exalando o feromônio doce do segredo.


(E vagueiam pelo lume sem fardos... porque são fadas.)

- Marla de Queirós -

Para que tu ainda me ames

Eu compreendi todas as palavras, eu compreendi bem, obrigada
Razoável e novo, é assim por aqui
Que as coisas mudaram, que as flores murcharam
Que o tempo de antes seria o tempo de agora
Que se tudo muda constantemente, os amores também passam

É preciso que tu saibas

Eu irei procurar teu coração se tu levares a outro lugar
Mesmo se nas tuas danças, tuas horas outros dancem
Eu irei procurar tua alma nos frios, nas chamas
Eu te jogarei pragas para que tu ainda me ames

Não precisava começar a me atrair, a tocar
Não precisava dar tanto, eu não sei jogar
Dizem que hoje os outros fazem assim
Eu não sou os outros
Antes que se apegue, antes que se entregue

Eu quero que tu saibas

Eu irei procurar teu coração se tu levares a outro lugar
Mesmo se nas tuas danças, tuas horas outros dancem
Eu irei procurar tua alma nos frios, nas chamas
Eu te jogarei pragas para que tu ainda me ames

Eu encontrarei as linguagens para te tecer louvores
Eu farei nossas bagagens para infinitas colheitas
As fórmulas mágicas dos Marabutos da África
Eu os direi sem remorço para que tu ainda me ames

Eu me inventarei rainha para que o fogo recomece
Eu regressarei a estes outros que te dão prazer
Seus jogos serão os nossos, se tal é teu desejo
Mais brilhante, mais bela para uma outra faísca
Eu me transformarei em ouro para que tu ainda me ames

sexta-feira, novembro 7


ao ouvir as suites inglesas de bach
a humidade dos campos envolve-me
com uma névoa de rios
e uma auréola de margens
esta música puxa-me pelas suas mãos de som
para o ritmo que o poema devia encontrar
no limite dos teus cabelos
e tu contra o portão nesse contraluz que te incendeia
o vermelho da túnica sobre o branco dos muros
roubas ao cravo o seu sorriso profano
plantando nas suas teclas
um desejo que o jardim do teu corpo fará florescer
assim vens até mim
pelos degraus deste ritmo que bach inventou
para descrever não se sabe que dança
movimento de saias com o vento
baloiço vago que se evola
de uma entrega evanescente
num canto de arbusto
até ao silêncio branco com que o amor se fecha






episódio musical
de nuno júdice

Mulher, Homem

Sou flores multicores
Sou rosas, jasmins, margaridas,
Sou as pétalas caídas
Sou bem querer
Sou bem-me-quer
Sou tua
Mulher

És músculo, olhos, odores
És gozo, rítmo, cores
És macho da minha espécie
És a minha fome
És o bicho que me come
És meu
Homem

( Paty Padilha e Bernadette Moscareli)

"Para quem ama,
não será a ausência a mais certa,
a mais eficaz,
a mais intensa,
a mais indestrutível,
a mais fiel das presenças ?"
Marcel Proust



"Todo o mundo nos revelará os seus segredos, se o amor que lhe dedicarmos for suficientemente grande."
George Washington Carver


"O nosso coração tem a idade daquilo que ama."

Marcel Prévost





"O luar por amigo,
a sombra por escrava,
vamos todos fruir
a Primavera,festejar.
Eu canto e passeiam no ar
os raios de luar."

Li Bai

Escreve-Me...

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!

Escreve-me!Há tanto,há tanto tempo
Que te não vejo, amor!Meu coração
Morreu já,e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!

"Amo-te!"Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...

Florbela Espanca


quarta-feira, novembro 5




Eu só quero que você saiba
Que estou pensando em você
Agora e sempre mais
Eu só quero que você ouça
A canção que eu fiz pra dizer
Que eu te adoro cada vez mais
E que eu te quero sempre em paz

Tô com sintomas de saudade
Tô pensando em você
E como eu te quero tanto bem
Aonde for não quero dor
Eu tomo conta de você
Mas te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem

Eu só quero que você caiba
No meu colo
Porque eu te adoro cada vez mais
Eu só quero que você siga
Para onde quiser
Que eu não vou ficar muito atrás

Marisa Monte

Pedir-te a sensação
a água
o travo

aquele odor antigo
de uma parede
branca

Pedir-te da vertigem
a certeza
que tens nos olhos quando
me desejas

Pedir-te
sobre a mão
a boca inchada
um rasto de saliva
na garganta

pedir-te que me dispas
e me deites
de borco e os meus seios
na tua cara

Pedir-te que me olhes e me aceites
me percorras
me invadas
me pressintas

Pedir-te que me peças
que te queira
no separar das horas
sobre a língua

Meu ciúme
meu perfil
minha fome

meu sossego
minha paz
minha aventura

Meu sabor
minha avidez
saciedade

minha noite
minha angústia
meu costume

Maria Tereza Horta in Invocação ao amor


... Como viver daqui em diante



Se insistes em ficar



Me enjaulando num verso



Eu, uma fera no seu laço



Amordaçada, sei,Há muito tempo,



Que era você



Que viria me fazer pecar...







Della-Porther

Os meus versos

Rasga esses versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!…

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente…

Rasgas os meus versos… Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!…

FLORBELA ESPANCA



Afundo um pouco o rio com meus sapatos.
Desperto um som de raízes com isso
A altura do som é quase azul.

Manoel de Barros


Acorda bailarina
Nos braços do poeta
Faça um pas-de-deux
Com minh’alma.
Leonor Cordeiro

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias



David Mourão-Ferreira


Dile al pájaro que sólo hay árbolesen mi corazón.






Clara Janés



DA PROPENSÃO A PERDER AS CHAVES


Tenho perdido muitas chaves pela vida.
A chave do êxito extraviou-se num século
cujas chaves não decifro neste pentagrama
de louca transcendência.
A da felicidade caiu no mar dos absurdos
e meu escafandro estava cheio de furos.
A do conhecimento está em algum lugar
que não sei precisar
buscá-la é ofício do vigia
que faz a barba em minha pupila.
A da imortalidade pesava tanto
tive que desfazer-me dela
para seguir vivendo.
A do teu coração profundo e espesso
só abria duas de suas sete portas.
A única chave que conservo
preserva minha inocência
em algum lugar da caixa do corpo.
Só para não perdê-la
Escrevo versos.

Consuelo Tomás



domingo, novembro 2

“A felicidade suprema na vida é a convicção de sermos amados."
- Victor Hugo

sábado, novembro 1

Quase poema



Ando pela casa,

inquietude nos pés,

à volta das coisas mudas,

como se o poema me pudesse ser dito.


O quê dizer e quando?

Em que lugar esconde-se

a ordem das palavras,

que me permita estar próxima de alguma poesia?


Nada interessa às buganvílias da varanda,

ou ao menino que brinca lá fora.

O dia é calmo

como todos os domingos em que choveu.


Assisto ao filme francês,

quieta.

Como se tudo fosse assim,

pacífico.

Fumo um cigarro,

mordo a maçã .

Com a naturalidade de quem não vive o paradoxo,

discretamente.

E sinto escapar-me dos dedos

a poesia do mundo.


Como encontrar o verso que diga

a falta que me atravessa,

o impacto do silêncio?

As palavras são tantas

e são nenhuma.

O poema não é meu,

nem teu,

nem de ninguém.


Ando à procura dele

como quem procura um bálsamo.

Entardece o longo dia de verão

e não estás onde disseste que estarias.


Por um momento,

em gestos lentos,

acaricio o sonho,

os lábios no beijo mais longo que o dia.

Mas não, não sou de sonhos,

ou crenças,

não vivo de sombras.

Talvez mesmo não seja de poemas,

este encontro aleatório de palavras

com nexo obscuro.


Assim, levanto-me

e me preparo para ir comprar cigarros.


Dentro de mim

um cello murmura

certa música distante.


Silvia Chueire