
sábado, agosto 1

Eu ia trabalhar ... - Richard Le Galliene
Eu ia fazer meu trabalho, hoje cedo,
Mas um passarinho cantou no arvoredo,
E as borboletas no campo esvoaçavam,
E as verdes folhagens todas me acenavam
.
E a brisa soprava suave no prado,
Balançando a relva, prum lado e outro lado,
E o lindo arco-íris a mão me estendeu:
Como resistir-lhes? Sorri - e lá fui eu!

É fácil fazer um homem amar-te
... Põe-te nua à frente de um espelho, a seu lado
... Todos os delicados detalhes que o fazem sentir
homem e o teu único homem. Oferece-lhe tudo,
oferece-lhe o que faz de ti uma mulher, o perfume
do teu cabelo comprido, o doce almiscarado dos teus seios
... e todas as tuas infinitas
fomes de mulher...
Kamala Das
segunda-feira, julho 27

É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora
E sozinha supor
Que se estivesses dentro
Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora
Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.
Hilda Hilst
Defeitos E Tudo Mais
Defeitos E Tudo Mais
Sou um trem destruído pela manhã
Sou uma vadia pela tarde
As vezes, e sem nenhum aviso
Eu posso ser realmente má contigo
Sou um quebra-cabeça sim, e daí
Sempre complexa em todos os sentidos
E todas as peças nem mesmo estão na caixa
E contudo, você vê a figura clara como o dia
Eu não sei porque me ama
E é por isso que eu te amo
Me levanta quando eu caio
Aceita meus defeitos e tudo mais
E é por isso que eu te amo
E é por isso que eu te amo
E é por isso que eu te amo
Eu ignoro-te quando estou a trabalhar
Quando eu preciso de atenção eu tendo a reclamar
Sou uma hospedeira de imperfeições
E você ignora tudo isso
Sou uma camponesa para alguns padrões
Mas aos seus olhos sou uma rainha
Você vê potencial em todos os meus defeitos
E isso é exatamente o que eu preciso
quinta-feira, julho 23
Hoje te canto e depois no pó que hei de ser
Te cantarei de novo. E tantas vidas terei
Quantas me darás para o meu outra vez amanhecer
Tentando te buscar. Porque vives de mim, Sem Nome,
Sutilíssimo amado, relincho do infinito, e vivo
Porque sei de ti a tua fome, tua noite de ferrugem
Teu pasto que é o meu verso orvalhado de tintas
E de um verde negro teu casco e os areais
Onde me pisas fundo. Hoje te canto
E depois emudeço se te alcanço. E juntos
Vamos tingir o espaço. De luzes. Se sangue.
De escarlate.
Hilda Hilst
terça-feira, julho 21

Sentidos
Zélia Duncan
(christian Oyens/zélia Duncan)
Não quero seu sorriso
Quero sua boca
No meu rosto
Sorrindo pra mim
Não quero seus olhares
Quero seus cílios
Nos meus olhos
Piscando pra mim
Transfere pro meu corpo
Seus sentidos
Pra eu sentir
A sua dor, os seus gemidos
E entender porque
Quero você !
Não quero seu suor
Quero seus poros
Na minha pele
Explodindo de calor.
segunda-feira, julho 20

"Existem coisas que, sozinhos, não conseguimos mudar.
Eu sempre fico triste quando vejo alguém jogado na rua, à margem desse sistema.
Mas se eu ficar triste, SÓ TRISTE, eu serei mais uma a aumentar as tristezas no mundo.
E a tristeza só consegue nos deixar FRACOS e INERTES.
O mundo precisa é de um exército de gente feliz,
capaz de doar UM POUCO DE SI e DO QUE SABE,
capaz de FAZER A DIFERENÇA na vida de algumas pessoas.
Meus braços não são do tamanho do mundo,
mas foram feitos no tamanho exato de abraçar alguém"
(Rita Apoena)
domingo, julho 19
Esse post é para meus filhos Luene festejando seus 23 anos e Enrico

MEUS FILHOS TÊM PASSADO MAIS DO QUE FUTURO
Fabrício Carpinejar
Jogar futebol dentro de casa é um hábito do meu filho. A bola de pano fica cobrindo seu tênis, reforçando o cadarço. Toda porta se converte em uma goleira.
É natural que as esculturas da sala estejam quebradas.
A namoradeira na janela foi decapitada. São Francisco de Assis de madeira perdeu seus amigos pássaros. Um pescador viu sua rede e seus peixes levantarem asas. A baiana não segurou o vaso na cabeça. O flautista da Ásia acabou partido em dois.
A sala é um aprumo, uma beleza, com móveis feitos sob medida. O que fazer com as peças danificadas?
Não coloquei nenhuma escultura fora. Colamos os objetos em longa entrega. Chegamos a pintar de novo, escová-los com verniz, exercendo o papel de cirurgião da infância.
Meus dedos estão grudados aos dedos do meu filho de tanto que passeamos pela cola bonder. A textura plastificada não me enerva, é um esmalte transparente da cumplicidade. Coço a mão com impagável orgulho. Como um artesão depois de uma longa trama de cordas. Como um oleiro depois de girar o barro e encontrar as curvas da estrada de Caxias do Sul.
Não posso ensinar aos filhos a não errar. O que me cabe é ajudá-los a restaurar, a dar a volta por cima, a cuidar do estrago e procurar a dignidade da emenda.
Há uma obsessão dos pais de fazer avançar a qualquer custo. De ir para frente, de pular de série, de alcançar a excelência das notas, de profissionalizar o tempo e ocupar os horários para não tropeçar em bobagens. Educar é mandar, ser educado é aceitar ordens.
Tudo é sempre uma única vez, movida a frases sentenciosas “Não irei repetir” ou “Presta atenção”. Quantos meninos e meninas se deprimem por não encontrar uma segunda chance na família?
Penso o contrário. Sinto o contrário.
Compreendo que a criança não poderá voar se não andar primeiro. Mais do que nunca, precisa saber voltar atrás. Ter passado mais do que futuro. Isso significa suportar a frustração, reagir quando as coisas não acontecem como esperadas. Contar com tristeza suficiente para sair da tristeza e se levantar. Mimar é não permitir que nada se quebre. Amar, de outro modo, é reconstituir os estilhaços.
Não penalizar por uma nota ruim com castigo e privação dos prazeres, mas dar a consciência de que o conceito é provisório e que é natural melhorar. Estimular o pequeno com a própria dificuldade. Recompor o que foi estragado, reconstituir um desenho rasgado, remontar os escombros e não se envergonhar pela demora.
Deixo as esculturas mancas na sala. Não me importo como as visitas vão reagir ou se passarão a me observar com desconfiança. Os defeitos permanecem expostos. A vida é para ser usada.
Vamos fazer limpeza, mas geral
e vamos deitar fora as coisas todas
que não nos servem para nada, essas
coisas que não usamos já e essas
que nada fazem mais que apanhar pó,
as que evitamos encontrar porquanto
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos fazem mal, enchem espaço
ou não quisemos nunca ter por perto.
Vamos fazer limpeza, mas geral,
talvez melhor ainda uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
que fiquem onde sempre têm estado;
vamos embora só nós, vida minha,
para voltar a acumular de novo.
Ou vamos deitar fogo ao que nos cerca
e ficarmos em paz com essa imagem
do braseiro do mundo face aos olhos
e com o coração desabitado.
Amalia Bautista
quinta-feira, julho 16

Voir Un Ami Pleurer
(Jacques Brel)
Ver um amigo chorar
Com certeza existem as guerras da Irlanda
e também povos sem música
Com certeza, com toda essa falta de carinho
Não há mais América
Com certeza o dinheiro não tem cheiro
mas essa falta de cheiro sobe aos seus narizes
Com certeza andamos sobre as flores
Mais voir un ami pleurer !
Porém ver um amigo chorar !
Mais voir un ami pleurer...
Assinar:
Postagens (Atom)









