sábado, abril 17

sexta-feira, abril 16



Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé – o meu – sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama.

Por fim o sono calmo, que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o meu pé descansando no teu pé,
a tua mão dormindo no meu seio.

Rosa Lobato de Faria

quarta-feira, abril 14

terça-feira, abril 13



Damas da luz e damas das trevas, damas de tudo o mais,
esta é uma prece por uma blueberry girl.
Primeiro que tudo, senhoras,
tende a bondade de poupá-la a escorregadelas e tropeções aos dezasseis,
permiti que se mantenha desperta e ajuizada, livre de pesadelos aos três,
de maridos que lhe entristeçam o olhar aos trinta,
de dias tristes aos catorze,
de falsas amigas aos quinze.
Permiti que tenha dias de coragem e de verdade.
Permiti que vá a lugares a que nunca nos permitiram que fôssemos
e que tenha sempre alegria na sua juventude.
Damas da graça e damas da mercê, damas de poder misericordioso,
esta é uma prece por uma blueberry gir
Concedei-lhe a vossa pureza de visão.
As palavras podem ser inquietantes,
as pessoas podem ser complexas
e os meios pouco claros.
Concedei-lhe a sabedoria de escolher o caminho direito,
livre de maldade e medo,
permiti que conte histórias e dance à chuva,
que dê cambalhotas, role e corra,
que as suas alegrias sejam tão altas como as suas tristezas profundas.
Permiti que cresça como uma erva ao sol.
Damas do paradoxo, damas do equilíbrio, damas das sombras que caem,
esta é uma prece por uma blueberry girl.
Ajudai-a a ajudar-se a si própria,
ajudai-a a levantar-se,
ajudai-a a perder-se e a encontrar-se,
ensinai-a que temos o tamanho dos nossos sonhos,
ensinai-a que a fortuna é cega,
que a verdade é uma coisa que ela terá de encontrar por si própria,
preciosa e rara como uma pérola.
Concedei todos estes dons e um pouco mais ainda a uma blueberry girl.

Neil Gaiman


Nosso amor é impuro
como impura é a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despido.
Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto

Quanto a mim, gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos de fogo do verão, aos barcos no vento; gosto das palavras lisas como seixos, rugosas como pão de centeio.
Palavras que cheiram a feno e a poeira, a barro e a limão, a resina e a sol.
Foi com essas palavras que fiz os poemas.
Palavras rumorosas de sangue, colhidas no espaço luminoso da infância, quando o tempo era cheio, redondo, cintilante.
As palavras necessárias para conservar ainda os olhos abertos ao mar, ao céu, às dunas, sem vergonha, como se os merecesse, e a inocência pudesse de quando em quando habitar os meus dias.
As palavras são a nossa salvação.


Eugénio de Andrade

A luz trocada em olhos que ficaram
subitamente cegos, e depois as palavras,
cautelosas, dizendo a seda
dos corpos sós. O desejo
foi polindo em silêncio
um fruto em busca da sua maturação.
A teu lado me deito e bebo a água
que tu me abres
e onde me perco e ardo e tudo.
Aqui tens o meu corpo cheio de mundo.
Amar-te é viagem que não se acaba
e contigo vou, para o alto
e para o fundo.

Casimiro de Brito

Se eu pudesse dizer-te: — senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém — Vê se adivinhas…
Então um fértil jogo amor seria.
Não este descerrar a mão vazia!


Alexandre O´Neill

Vem, serenidade!

faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros

e com que os ombros subam à altura dos lábios,

faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos
*
Raul de Carvalho



Mas fica.
Mas fica, meu amor.


Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar.


Chico Buarque


"Se o amor leva à felicidade,
se leva à morte,
se leva a algum destino. Se te leva.


E se vai, ele mesmo…
Não faças de ti,
um sonho a realizar.
Vai“


Cecília Meireles

domingo, abril 11


Um regaço para chorar

Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...
Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabar por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, de perigos grandes - penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das Coisas...
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas...

Bernardo Soares .Fernando Pessoa, Livro do Desassossego