domingo, setembro 21


A minha bicicleta
só tem dois pedais
mas se monto nela
não tem dois, tem mais !

A minha bicicleta
tem um guiador
quando monto nela...
...sou aviador!


No jardim onde ando
não vejo um canteiro...
sou aviador,
vejo o mundo inteiro


Voo mesmo a sério !...


Por cima das árvores
(não toco no chão!)
voo mesmo a sério
vou de avião...

A minha bicicleta
também tem selim
mas eu nem me sento,
gosto mais assim:


Pedalo em pé
dá mais rapidez
a minha bicicleta
é o que tu vês:


É um avião,
pois eu não te digo?!


Da próxima vez...

Da próxima vez
Levo-te comigo!

(Fernando Miguel Bernardes)

Imagina


Tom Jobim/Chico Buarque


Imagina, imagina
Hoje à noite a gente se perder
Imagina, imagina
Hoje à noite a lua se apagar
Quem já viu a lua cris?
Quando a lua começa a murchar
Lua cris
É preciso gritar e correr, socorrer o luar
Meu amor,
Abre a porta prá noite passar
E olha o sol da manhã
Olha a chuva, olha a chuva
Olha o sol
Olha o dia a lançar serpentinas
Serpentinas pelo céu, sete fitas coloridas
Sete vias
Sete vidas, avenidas, prá qualquer lugar
Imagina, imagina, imagina, imagina
Sabe que o menino que passar debaixo do arco-íris, vira moça vira
A menina que cruzar de volta o arco-íris rapidinho volta a ser rapaz
A menina que passou no arco
Era o menino que passou no arco
E vai virar menina
Imagina, imagina, imagina, imagina, imagina
Hoje à noite a gente se perder
Imagina, imagina

Hoje à noite, a lua se apagar

Moça na cama




Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça em ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no topor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros tem seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.

Adélia Prado

domingo, setembro 14


Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado.
E
Tem que ser convincente,mas de maneira diferente,do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto à tentação de dizer
Que o gesto não é só isto ... Quando tu, em confusão,
Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar.
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é... .!


Reinaldo Ferreira
Foi há muito tempo, mas descobri

que não é verdade o que dizem

a respeito do passado,

essa história de que podemos

enterrá-lo.

Porque de um jeito ou de outro,

ele sempre consegue escapar.


Khaled Hosseini

quinta-feira, setembro 11





... Mas eu deito-me no teu leito

quando apenas queria dormir em ti.



E sonho-te

quando ansiava ser um sonho teu...



- Mia Couto -

só quem possui

a força de uma amizade


consegue levar a vida

com leveza


Edu.giovanni



SONHO

O sonho é
um gato num quadro
a saltar para o nosso colo.

O sonho é
acreditar que um poema
pode mudar uma vida.

O sonho é
o olhar doce
de quem gosta de nós.

O sonho é
ter sempre
alguém à nossa espera.

O sonho é
a idade sem idade
das coisas que ficam.

O sonho é
não ter nada
e ser senhor de tudo.

O sonho é
ter os pés no chão
e continuar a voar.

O sonho é
fazer de cada palavra
um verdadeiro diamante.

O sonho é
ser verdadeiramente livre
e saber porquê.

- José Jorge Letria, in "O sonho é..."
Quedate...

Apareciste asi
Y fue el destino que nos quizo reunir
Algun camino de otro tiempo mas feliz
te trae denuevo aqui.

Mi vida amanecio
y cada luz de mi universo se encendio
En otro rostro me dijiste: aqui estoy yo
y yo te conoci
y mi vida te ofreci...

Quedate
que este tiempo es nuestro
y el amor tiene ganas de volver
Amor quedate
hoy no te me vayas como ayer

Te fuiste aquella vez
y yo en mis sueños tantas veces te busque
entre los angeles tu voz imagine
asi me conforme...
Pero ahora te encontre.

Quedate
que este tiempo es nuestro
y el amor tiene ganas de volver
amor quedate
no me dejes sola otravez.

Que la noche es larga
si no estoy contigo
Si otra vez me lanzas al avismo
si otra vez te vas......
Quedate....
Porfavor... por siempre...

Quedate
que este tiempo nuevo como el sol
nos abriga el corazon
amor quedate quedate
que no vuelva el frio en el adios

Quedate
que este tiempo es nuestro
y el amor solo quiere renacer
amor quedate quedate
hoy no te me vayas como ayer
hoy no te me vayas como ayer.


Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras
e só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz a música
que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto


Ruy Belo

quarta-feira, setembro 10

E quando duas pessoas maduras estão amando, simplesmente acontece um dos maiores paradoxos da vida, um dos fenômenos mais belos: estão juntas e contudo tremendamente sós; estão tão juntas que são quase uma .
(Osho)



Eu fui para uma floresta de nogueiras,
Porque minha mente estava inquieta,
Eu colhi e limpei algumas nozes,
E apanhei uma cereja, curvando o seu fino ramo;
E, quando as claras mariposas estavam voando,
Parecendo pequenas estrelas, flutuando erráticas,
Eu lancei framboesas, como gotas, em um riacho
E capturei uma pequena truta prateada.
Quando eu a coloquei no chão
E fui soprar para reativar as chamas,
Alguma coisa moveu-se e eu pude ouvir,
E, alguém me chamou pelo meu nome:
Apareceu-me uma jovem, brilhando suavemente
Com flores de maçãs nos cabelos
Ela me chamou pelo meu nome e correu
E desapareceu no ar, como um brilho mais forte.
Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos
Por tantas terras cheias de cavernas e colinas, recusar aceitar
ઇ‍ઉ ßë®ñåð놆ë: Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,
E beijar seus lábios e segurar suas mãos;
Caminharemos entre coloridas folhagens,
E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo
As prateadas maçãs da lua,
As douradas maçãs do sol.


William Butler Yeats

UM APÓLOGO


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

-Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo ?

-Deixe-me, senhora.

Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável?

Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabaça.

Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça.

Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

Mas você é orgulhosa.

Decerto que sou.

Mas por quê?

É boa ! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

Você? Esta agora é melhor. Você que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...

Também os batedores vão adiante do imperador.

Você imperador?

Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo.

Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela.

Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana – para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

-Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas.

A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura para o dia seguinte;continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se levava a agulha espetando corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, alinha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

Ora agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência,murmurou à pobre agulha: - Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém.

Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanado a cabeça: - Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
Machado de Assis

quinta-feira, agosto 28


 Maria Bethania Milton Nascimento - Canções e Momentos

Borboletas em Poesia



As Borboletas que chegam
Vem nos presentear
Beijam flores
Acariciam pétalas

Trazem os segredos
De todos os poetas
Que usam suas asas
Para nos visitar

São belas rimas
Coloridas sintonias
São sonetos suaves
De asas liláses

Surge um doce bailado
A música e ela a dançar
Romance melado
Amor pelo ar


Paty Padilha & Bernadette Moscareli
Publicado no Recanto das Letras em 26/08/2008
cód de texto:T1147467

Penélope


mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

e recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

David Mourão-Ferreira
Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.

Adélia Prado




Companheiros


quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho
e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados
deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros
mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça
por ora
basta-me o arco-íris
em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço
companheiros

Mia Couto

A noite
caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.

No alto, a utópica Lua vela comigo
E sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! Se o espectáculo findou
Deixa-nos também dormir.

Fernando Namora