terça-feira, outubro 21


Não sabes, criança? Estou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

Castro Alves
Formosura,
procura encontrar-te no amor,
não na adulação do espelho.


Rabindranath Tagore

De Gramática e de Linguagem




E havia uma gramática que dizia assim:
"Substantivo (concreto) é tudo quanto indica
Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta".
Eu gosto das cousas. As cousas sim !...
As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso.
As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém.
Uma pedra. Um armário. Um ovo, nem sempre,
Ovo pode estar choco: é inquietante...)
As cousas vivem metidas com as suas cousas.
E não exigem nada.
Apenas que não as tirem do lugar onde estão.
E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.
Para quê? Não importa: João vem!
E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,
Amigo ou adverso...João só será definitivo
Quando esticar a canela. Morre, João...
Mas o bom mesmo, são os adjetivos,
Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.
Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. luminoso.
Sonoro. Lento. Eu sonho
Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.
Ainda mais:
Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido:
Basta provares o seu gosto...

Mario Quintana
POESIA


Irás ouvi-la, a musa; ela bate três vezes. Depois não bate mais...

A senha é o absurdo.
Assim começa o segredo que esconde a mensagem derradeira...

Sentar-te-ás no escuro esperando as três pancadas. Não te iludas com a chegada dos três porquinhos,
ou do velho que manca com uma bengala. O que massacra a Esfinge no final do jogo.

O desfecho é o absurdo, sem o qual a rota da mensagem derradeira está inçada de significado, e a
incerteza de tudo está em toda a parte...

Russell Edson

Aguardo a tua vinda!
E, embora me entristeça
Enquanto aguarde,
É tão linda a promessa
Que chego a desejar que venhas tarde!

Armando Pinheiro

Receita de Felicidade

Pegue uns pedacinhos de afeto e de ilusão;
Misture com um pouquinho de amizade;
Junte com carinho uma pontinha de paixão
E uma pitadinha de saudade.

Pegue o dom divino maternal de uma mulher
E um sorriso limpo de criança;
Junte a ingenuidade de um primeiro amor qualquer
Com o eterno brilho da esperança.

Peça emprestada a ternura de um casal
E a luz da estrada dos que amam pra valer;
Tenha sempre muito amor,
Que o amor nunca faz mal.
Pinte a vida com o arco-íris do prazer;
Sonhe, pois sonhar ainda é fundamental
E um sonho sempre pode acontecer.

(Toquinho)



A saudade é um filme sem cor
que meu coração quer ver colorido.
Zeca Baleiro

sexta-feira, outubro 17


A minha vontade é forte, mas a minha disposição de obedecer-lhe é fraca.
Carlos Drummond de Andrade


"Se eu me magôo e passo a odiar quem foi insensível comigo,
esse problema é MEU, não do outro.
O outro apenas não correspondeu às minhas expectativas,
não deu o colo que eu achava que merecia,
não foi o amigo que eu queria que tivesse sido.
Ele foi ELE.
EU é que queria que ele tivesse agido diferente.
Então EU sou o responsável pelo que sinto". Léa Waider

Divagação sobre a palavra dormir


Divagação sobre a palavra dormir

Gostava de te olhar a dormir

mesmo que isso nunca aconteça.

Gostava de te olhar,

a dormir. Gostava de dormir

contigo, entrar

no teu sono, sentir seu fluxo suave e nebuloso

a deslizar sobre a minha cabeça

e caminhar contigo nessa floresta luminosa

ondulante de folhas fluorescentes

com um sol aquoso e três luas

até à caverna onde terás que descer,

em direcção ao teu pior medo

Gostava de te oferecer o ramal de prata,

a pequenina flor branca, aquela

palavra que te protegerá

da dor a meio

do teu sonho, do desgosto

central. Gostava de te acompanhar

até ao cimo da longa escadaria

mais uma vez e de ser

o barco para te transportar de volta

com cuidado, uma chama

entre duas mãos em concha

onde o teu corpo se deita
ao lado do meu, e tal como nele entras

com a facilidade com que se respira

Gostava de ser o ar

que te habita durante um breve

instante. Gostava de se ser tão imperceptível

e tão necessária.

Margaret Atwood

Cotovelos


Tapa bem os braços

Não deixes que os teus cotovelos

se mostrem.

É isto o que os meus vizinhos

dizem lá pra baixo, em Alabama,

às suas filhas

para que nenhum cotovelo

roliço ou magro

moreno ou rosado

possa atrair alguém

até à paixão.

No entanto, se eu imaginasse

que os meus flácidos, bicolores

cotovelos te iriam seduzir

se eu imaginasse

que os meus secos, ossudos

cotovelos te poderiam prender

agitava os meus braços

como um galo

como um pavão real

como uma galinha-da-índia

quando te voltar a ver

amor

arregaço

as mangas e vou

pecar

pecar

pecar


Minnie Bruce Pratt

quinta-feira, outubro 16


Senhora D fala a Ehud
(...) como se eu tocasse sozinho um instrumento, qualquer um, baixo, flautim, pistão, oboé, como se eu tocasse sozinho apenas um momento da partitura, mas o concerto todo onde está? Desperdícios sim, tentar compor o discurso sem saber do seu começo e do seu fim ou o porquê da necessidade de compor o discurso, o porquê de tentar situar-se, é como segurar o centro de uma corda sobre o abismo e nem saber como é que se foi parar ali, se vamos para a esquerda ou para a direita, ao redor a névoa, abaixo um ronco, ou acima?

Ehud responde

isso de procurar a orquestra, senhora D,
é coisa de vadios, sabe-se lá, mudaram-se todos,
que te importa o som de todos se tens o teu?


Hilda Hilst in A obscena senhora D

Ai, quem me dera



Ai quem me dera, terminasse a espera
E retornasse o canto simples e sem fim...
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim

Ai quem me dera percorrer estrelas
Ter nascido anjo e ver brotar a flor
Ai quem me dera uma manhã feliz
Ai quem me dera uma estação de amor

Ah! Se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais

Ai quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afins
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim

Ai quem me dera ouvir o nunca mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E finda a espera ouvir na primavera
Alguem chamar por mim...


Vinícius de Moraes
Com o amor não se brinca sem castigo.

August Strindberg



Quando ela fala




Quando ela fala, parece

Que a voz da brisa se cala;

Talvez um anjo emudece

Quando ela fala.


Meu coração dolorido

As suas mágoas exala.

E volta ao gozo perdido

Quando ela fala.


Pudesse eu eternamente

Ao lado dela, escutá-la,

Ouvir sua alma inocente

Quando ela fala.


Minh'alma, já semimorta,

Conseguira ao céu alçá-la,

Porque o céu abre uma porta

Quando ela fala.

Machado de Assis


«Se querem que as vossas crianças sejam inteligentes, leiam-lhes contos de fadas.
Se querem que elas sejam mais inteligentes, leiam-lhes mais contos de fadas.»

Einstein





terça-feira, outubro 14





Há pessoas que com
uma só palavra
despertam ilusões
e roseirais;
que com um mero sorriso nos olhos
nos convidam a viajar
por outras terras,
nos dão a conhecer toda a magia do mundo.
Há pessoas que com Um mero toque
Quebram a solidão, põem a mesa, servem um banquete
e colocam grinaldas;
que com uma simples viola
fazem uma sinfonia caseira
Há pessoas a quem basta
Abrir a boca
Para tocar nos confins da alma,
Alimentar uma flor,
Inventar sonhos,
Fazer cantar o vinho nas pipas,
Como se fossem a coisa mais simples do mundo.
E assim vamos de braço dado
Com a vida,
Desterrando uma morte solitária,
Pois sabemos que ao virar da esquina
Há pessoas assim,
Tão necessárias...

Hamlet Lima Quintana

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo! Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto! Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...

Cecília Meireles