domingo, novembro 23


Aquela mandante amizade. Eu não pensava em adição nenhuma, de pior propósito. Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços (...)



João Guimarães Rosa in Grande Serão: veredas.

quinta-feira, novembro 20

Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos...
...
Mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.

Mario Benedetti



quarta-feira, novembro 19


Você me tirou pra dançar
Sem nunca sair do lugar
Sem botar os pés no chão
Sem música pra acompanhar

Cláudio Lins


Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

Manuel de Barros in Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo

Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo

Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo
que não digo

Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei não te persigo

Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo

Maria Tereza Horta

Amor é
... ver-te chegar num eco de ave,
e deixar que me prendas
com o teu gesto mais suave,
sentir-te, só, ao pé de mim,
e sentir-me tão só longe de ti...

Nuno Júdice, Geometria Variável

Um anjo entrou pela minha janela
Sussurrou ao meu ouvido
Uma canção suave e bela
Trouxe o perfume de flores celestiais
E o brilho aveludado da luz
De mil castiçais
Quero bailar com o anjo
Ao som da flauta ou do banjo
Quero toda a angelical melodia
Lançando purpurina ao meu dia

de Úrsula A. Vairo Maia


Laço de Fita

Vocês trazem laço de fita para a minha vida
Onde o embrulho e o laço é o abraço
De dois amigos preciosos: Bernadette e Rene
Renasço a cada palavra amiga cercada de abraço

Meus dois amigos têm laço de barbante enrodilhado
Quando o problema bate a minha porta eles estiram
O laço um de cada canto deste Rio Grande do Sul
Eles são bons laçadores e são gaúchos e amigos meus

Por ter amigos como vocês gineteio a vida
No lombo do meu destino com destreza
E com o laço firme e largo eu abraço os dois amigos
Na arte da poesia com o laço da amizade.

Obrigada por serem meus amigos
(Graciela da Cunha)
18/11/08
(Dedico a Bernadette Moscareli e Rene Oliveira)




terça-feira, novembro 18


Os olhos são o espelho da alma.
E se isso, verdade é,
deixe-os serem a janela,
e veja por um instante
minha alma de mulher.

Vê a borboleta
que em doces volteios
acaricia suave, seus cabelos?

São meus dedos.

Feche os olhos e sinta.
Ao som suave da brisa,
minhas carícias que
vão lhe envolvendo.

Sinta o toque na pele,
que traçando seu rosto
vai descendo mansinho
em direção ao seu peito.

São meus beijos.

Sente o roçar pela cintura,
como asas de libélula voejando?
É minha língua.
Vou adentrando.

Das vestes, já liberto,
sinta o tempo de agosto
que vai molhando seu corpo.

Estou provando seu gosto.

Segure de leve, pressionando,
minhas ancas
transformadas em rédeas,
enquanto vou cavalgando.

Fica assim...
Parado a sentir
o veludo úmido lhe envolvendo.


Você está dentro de mim.

Rápido...
Vem comigo!
Vamos chegar ao fim...

Agora abra lentamente seus olhos.
Sinta a vida transformada
em seiva que de seu corpo flui.

Não me procure.
Como a tarde dessa primavera

Eu já fui...

Asta Vonzodas

segunda-feira, novembro 17

Esta vez dejadme
ser feliz,
nada ha pasado a nadie,...

... dejadme
en tu boca...
ser feliz,
ser feliz porque si, porque respiro
y porque tú respiras,...

Hoy dejadme...
ser feliz,
con todos o sin todos,
...
ser feliz,
contigo, con tu boca,
ser feliz.

Pablo Neruda


... Mas eu deito-me no teu leito
quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu...

Mia Couto



”… Queres saber quem eu sou? Eu sou o que te olha e espia para te recolher e depois guardar num lugar que é só meu. Para isso serve o papel. O resto não precisas de saber. Nem convêm. Só te ia distrair, podes crer. Eu sou o que mergulha as mãos na tua vida para sentir a minha a voltar …”

“… Por vezes gosta-se de uma mulher por não haver outra por perto de que se possa gostar. Por vezes gosta-se de uma mulher por se ter gostado muito de um homem que deixou de gostar de nós e precisamos de tudo tentar para o esquecer. Por vezes gosta-se de uma mulher por lembrar outra mulher de quem se gostou e não descobrimos quem possa ter sido. Por vezes gosta-se de uma mulher por se estar muito cansado de se gostar muito de uma outra mulher. Por vezes gosta-se de uma mulher só por gostar. Às vezes ele escrevia uma colecção de disparates que lhe juntava para oferecer. Às vezes ela ria, outras vezes não…”
”… Por vezes gosta-se de um homem só porque faz falta para ir ao cinema. Por vezes gosta-se de um homem só porque o corpo tem intermitentes exigências. Por vezes gosta-se de um homem só porque não se gosta de outro. Por vezes gosta-se de um homem só porque nos faz rir. Por vezes gosta-se de um homem só. Às vezes ela escrevia frases que depois lhe lia. Ela ria. Ele ficava muito sério a ouvir, a tentar descobrir em que caso cabia…”

”… É tão estranho conhecer uma pessoa. Tão dificil que parece impossivel. Não existir e passar a existir: uma pessoa inteira, um mundo inteiro. Onde caberá um mundo inteiro neste mundo pequenino? Como é que se consegue? Como se faz?…”
apagar 11 nov (6 dias atrás)
”… É preciso que saibas que, entre a liberdade e a segurança, a grande maioria não escolhe a liberdade. A liberdade precisa da coragem de lutar com o medo, sem a certeza de o vencer. E o medo existe sempre, ontem, hoje e amanhã, e a coragem é tão rara como o espirito que ama a liberdade…”

”… Por que queres tu que os meus lábios sejam só teus? Porque só eles são iguais aos teus…”

”… E para que serve o amor, diz-me já. Serve para perder o medo…”

“Muito, meu amor” - Pedro Paixão

Espero

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner




Te propongo esta noche
llegar a un acuerdo,

un diálogo entre mi cuerpo y tu cuerpo
una conversación sin palabras,
...
Te propongo un pacto de susurros,
una tertulia de gemidos,
un monólogo de gritos,
que todo lo que no dijimos
en la piel permanezca escrito...

Gloria Bosch
Ao dizer que te amo é
como se as portas da vida se
abrissem, e uma luz nascida de dentro
do desejo de ti me trouxesse
até mim. Mas ao dizer
que te amo, são as portas
da noite que se fecham, e é
contigo que espero a última
madrugada, onde entre
mim e ti
nenhumas portas existam.

Nuno Júdice




De longe te hei-de amar,
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância...

Cecília Meireles

O amor me pegou...