
domingo, março 28
sexta-feira, março 19
Quadrado Mundo

Este teu monitor é o quadrado mundo que impede o navegante de ir além-mar. Fosse redondo eu poderia entrelaçar os meus dedos nos teus ou, quem sabe, buscar o horizonte onde divisam teus olhos. Mas nem os olhos me fariam alcançar, pois como as vidas, escondidas, que amanhecem e entardecem além do olhar, um abraço não se enxerga e sonhos um olhar não conta.
Ao mundo que ultrapassa o além-mar dos teus olhos:abraçar é preciso.
Rita Apoena
♥

...uma mordidinha para sentir o gosto
um cheirinho para sentir o perfume
um beijinho rápido, uma ilusãozinha
a quantos basta uma amostra grátis
não consigo molhar os pés apenas
eu mergulho e só paro quando me afogo
eu me queimo e só paro quando derreto
eu me jogo e só paro quando me param...
Martha Medeiros
Je Me Souviens

Flores de lís brancas sob um céu azul de cristal
Passeios sob uma neve em forma de estrela
Folhas de bordo na cor de uma paixão faltal
Eu não esqueço nada,
Eu me lembro...
Os cheiros de uma floresta que um grande lago devora
O reflexo de uma fogueira sobre nossos rostos pálidos
Uma luz intensa por noites boreais
Eu não esqueço nada,
Eu me lembro...
Eu amo teus poemas, teu coração, tua liberdade
És a unica terra onde
minha alma pousou...
Um sotaque que ninguém conhece os segredos
Um Francês que se lança em palavras já esquecidas
Uma maneira inigualável de cantar
Eu não esqueço nada,
Eu me lembro...
Eu amo tuas blasfêmias, tua fé, tua dignidade
És como uma ilha
de onde não se pode partir...
Eu amo teus poemas, teu coração, tua liberdade
És como uma ilha
de onde não se quer partir...
Paisagens que misturam o mais que perfeito
Desenhos que a natureza nunca mais fará
A impressão de ter entrado no jardim da paz
Eu não esqueço nada,
E eu retornarei...
quinta-feira, março 18
segunda-feira, março 15

~ Desejo ~
Desejo dizer-lhe as palavras mais profundas, mas não me atrevo, porque temo sua gozação. Por isso acho graça de mim mesmo e transformo em brincadeira meu segredo.
Duvido de minha angústia, para que você não duvide.
Desejo dizer-lhe as palavras mais sinceras, mas não me atrevo, porque temo que não acredite. Por isso as disfarço de mentiras e digo o contrário do que penso.
Me esforço para que minha angústia não pareça absurda para que você não ache que é.
Desejo dizer-lhe as palavras mais valiosas, mas não me atrevo, porque temo não ser correspondido. Por isso me declaro duramente e me orgulho de minha insensibilidade.
Desejo sentar-me silenciosamente a seu lado, mas não me atrevo, porque temo que meus lábios traiam meu coração. Por isso falo disparatadamente, escondendo meu coração atrás das minhas palavras.
Trato a mim mesmo com dureza, para que você não o faça.
Desejo separar-me de você, mas não me atrevo, porque temo que descubra minha covardia. Por isso levanto a cabeça e fico perto de você com ar indiferente.
A constante provocação de nossos olhares remove minha angústia sem piedade.
Tagore
segunda-feira, janeiro 11
sobre o plágio

Hoje uma leitora bem querida me enviou um email, dizendo que uma moça tem plagiado os meus textos. Confesso que até me ajeitei na cadeira, com ares de alguma importância, e fui lá conferir a homenagem. Reconheço que alguns textos até ficaram melhores do que o original e, se a moça não se importar, incorporarei as modificações, dando-lhe os devidos créditos, claro. Penso até que nem seja um plágio, mas que a moça esteja treinando o próprio estilo. Feito quando a gente aprende a andar de bicicleta e utiliza aquelas duas rodinhas de apoio. Logo logo, ela irá se desprender dos meus textos e deslizar pelas ruas com os seus braços abertos.
Rita Apoena

O meu mundo tem estado à tua espera; mas
não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,
nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei
que um poema se escreveria entre nós dois; mas
não comprei o vinho, não mudei os lençóis,
não perfumei o decote do vestido.
Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome
(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido);
se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira –
estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro
com a violência de um incêndio; mas parto
antes de saber como seria. Não me perguntes
porque se mata o sol na lâmina dos dias
e o meu mundo continua à tua espera:
houve sempre coisas de esguelha nas paisagens
e amores imperfeitos – Deus tem as mãos grandes”.
MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
OS MELHORES ANOS DA NOSSA VIDA
Acho que cada dia
É como em uma pesca milagrosa
É bom pescar sentado
Em uma nuvem macia e cor de rosa
Eu, um cavalheiro elegante
E você vestida como uma noiva
Enquanto lá fora, só a poeira consegue voar
Sinto o temporal no ar
Será que nos dois
Somos de um planeta distante
O mundo daqui
Parece um esconderijo secreto
Todos querem tudo
Mas o tudo é nada de certo
Nos não faremos como os outros, como toda gente
Estes serão ...
Os melhores anos da nossa vida
Os melhores anos da nossa vida
Me de um abraço forte
Pois não há noite infinita
Os melhores anos da nossa vida
É maravilhoso ficarmos abraçados
No escuro em silencio
Como boxers após a luta
Seremos os últimos sobreviventes
Talvez um dia a gente perceba
Que não nos perdemos nunca
E que toda aquela tristeza
Na realidade, nunca existiu
Maurizio Fabrizio, Guido Morra
É como em uma pesca milagrosa
É bom pescar sentado
Em uma nuvem macia e cor de rosa
Eu, um cavalheiro elegante
E você vestida como uma noiva
Enquanto lá fora, só a poeira consegue voar
Sinto o temporal no ar
Será que nos dois
Somos de um planeta distante
O mundo daqui
Parece um esconderijo secreto
Todos querem tudo
Mas o tudo é nada de certo
Nos não faremos como os outros, como toda gente
Estes serão ...
Os melhores anos da nossa vida
Os melhores anos da nossa vida
Me de um abraço forte
Pois não há noite infinita
Os melhores anos da nossa vida
É maravilhoso ficarmos abraçados
No escuro em silencio
Como boxers após a luta
Seremos os últimos sobreviventes
Talvez um dia a gente perceba
Que não nos perdemos nunca
E que toda aquela tristeza
Na realidade, nunca existiu
Maurizio Fabrizio, Guido Morra
Poema

visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado
tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te
[Al Berto]
"É tão dificil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Dificilimo contar. Olhei para você fixamente por instantes. Tais momentos são meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo a isto estado agudo de felicidade."
Clarice Lispector

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.
.
Seus seios altos parecem
(Se ela tivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem Ter que haver madrugada.
.
E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.
.
Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como ?
.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

É inútil desistir.
Por detrás das muralhas da vontade
mora o desejo, a força que as derruba.
Deixa que nasça, que avolume e suba
esta maré de seiva e de ternura!
A grandeza do homem, criatura
que cresce enquanto ama e pode amar,
é saber
que só depois do gosto de pecar
lhe vem o gosto de se arrepender.
Miguel Torga, Terra Humana
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