terça-feira, outubro 14





"Faz de conta que tudo que ela tinha
não era de faz de conta."


Clarice Lispector

segunda-feira, outubro 13


Deu-me o amor este dom

o de dizer em poesia




Poeta e amante é o que sou

E só quem ama é que sabe

dizer além da verdade

e dar vida à fantasia



Hilda Hilst




Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra,
deixou ficar o sentido.
O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.
Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem...
Só se aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também



Cecília Meireles

Senhora D fala a Ehud
(...) como se eu tocasse sozinho um instrumento, qualquer um, baixo, flautim, pistão, oboé, como se eu tocasse sozinho apenas um momento da partitura, mas o concerto todo onde está? Desperdícios sim, tentar compor o discurso sem saber do seu começo e do seu fim ou o porquê da necessidade de compor o discurso, o porquê de tentar situar-se, é como segurar o centro de uma corda sobre o abismo e nem saber como é que se foi parar ali, se vamos para a esquerda ou para a direita, ao redor a névoa, abaixo um ronco, ou acima?

Ehud responde

isso de procurar a orquestra, senhora D,
é coisa de vadios, sabe-se lá, mudaram-se todos,
que te importa o som de todos se tens o teu?


Hilda Hilst in A obscena senhora D

sábado, outubro 11

Chapeuzinho Vermelho???


Na floresta do teu peito
Tem um atalho escondidinho
Onde mergulho meu vermelho
Capuz de chapeuzinho

No furinho do teu queixo
Me perco apaixonada
Sou Chapeuzinho tarada
Estou louca pra te amar

No meu conto safadinho
O final é bem feliz
Pois meu lobo gulosinho
Do lanche só pede bis

(Bernadette Moscareli e Paty Padilha)
Som de celo


Alice Ruiz


Você tem o dom
de pôr som de celo
onde havia gelo
quem dera tê-lo
você e teu dom
de transformar esse silêncio
num solo de celo
quem dera descobrir
teus zelos véu por véu
descobrir talvez um novo céu
e nele vê-lo
entre as estrelas
cobrir você
com meus cabelos
quem dera este celo
não fosse tão solo
quem dera você para sê-lo

Dizeis que tenho vaidades.

E que no vosso entender

Mulheres de pouca idade

Que não se queiram perder

É preciso que não tenham

Tantas e tais veleidades.



Senhor, se a mim me acrescento

Flores e renda, cetins,

Se solto o cabelo ao vento

É bem por vós, não por mim.



Tenho dois olhos contentes

E a boca fresca e rosada.

E a vaidade só consente

Vaidades, se desejada.



E além de vós

Não desejo nada.

Hilda Hilst


segunda-feira, outubro 6


Perdi a minha gota de orvalho!

- queixou-se a flor ao céu do amanhecer,

o qual tinha perdido todas as suas estrelas ....


Tagore





A Ivonete está quase gritando:
“ai, senhor, liberta o coitadinho”.
Entrou pela porta da cozinha
e se perdeu atrás da geladeira,
aprendendo a voar,o filhote de passarinho.
A mãe, louca, piando em volta e trazendo comida,
sem sucesso, uma zoeira os dois.
Abel arrastou a geladeira e pôs o filhote na grama,
a mãe veio doida atrás e os dois sumiram.
Graças a Deus, falou Ivonete,
como é que tem gente que não olha os filhos,
se até bicho-mãe cuida da cria.

Adélia Prado in Quero minha mãe





'o meu maior desejo

sempre foi o de aumentar a noite

para a conseguir encher de sonhos'



Virginia Woolf

Podei a roseira no momento certo

e viajei muitos dias,

aprendendo de vez

que se deve esperar biblicamente

pela hora das coisas.

Quanto abri a janela, vi-a,

como nunca a vira,

constelada,

os botões,

alguns já com o rosa-pálido

espiando entre as sépalas,

jóias vivas em pencas.

Minha dor nas costas,

meu desaponto com os limites do tempo,

o grande esforço para que me entendam

pulverizaram-se

diante do recorrente milagre.

Maravilhosas faziam-se

as cíclicas perecíveis rosas.

Ninguém me demoverá

do que de repente soube

à margem dos edifícios da razão:

a misericórdia está intacta,

vagalhões de cobiça,

punhos fechados,

altissonantes iras,

nada impede ouro de corolas

e acreditai: perfumes.

Só porque é setembro.


Adélia Prado
criança observa ,

com amor e não com indiferença.

Isso , é que a faz ...


_ Ver o invisível _


Maria Montessori


Boneca se aquece

com o meu chapéu de lã.

Eu visto saudades.


Teruko Oda



dá-me um lugar onde possa reclinar a cabeça
um colo onde possa adormecer
e te saiba por perto

dá-me mãos inteiras de chuva
os lírios que a manhã me trouxe aos olhos
uma única razão para o dilúvio

e eu dar-te-ei um verso
do tamanho de uma casa


José Rui Teixeira

Cantar de Amigo


À beira do rio fui dançar... Dançando
Me estava entretendo,
Muito a sós comigo,
Quando na outra margem, como se escondendo
Para que eu não visse que me estava olhando,
Por entre os salgueiros vi o meu amigo.
Vi o meu amigo cujos olhos tristes
Certo se alegravam
De me ver dançar.
Fui largando as roupas que me embaraçavam,
Fui soltando as tranças...Olhos que me vistes,
Doces olhos tristes, não no ireis contar!
Que o amor é lume bem eu o sei...que logo
Que vi meu amigo
Por entre os salgueiros,
Melhor eu dançava, já não só comigo
Toda num quebranto, ao mesmo tempo em fogo,
Melhor eu movia mãos e pés ligeiros.
Que Deus me perdoe, que aos seus olhos tristes
Assim ofertava
Minha formosura!
Se não fora o rio que nos separava,
Cruel com nós ambos, olhos que me vistes,
Nem eu me amostrara tão de mim segura...

José Régio

Rosalina tem
segredos de
várias cores.



O segredo verde
ela conta só no
ouvido do beija-flor.



O segredo lilás
ela prende no cabelo
e vai passear com a
Gata Lina numa caverna
quase de verdade.



O segredo transparente
ela põe pra tingir no
sol de setembro.


O segredo azul
ela conta só pra mim,
que não conto
pra ninguém.

Quem sabe,
no ano que vem...



Eloí Elizabet Bocheco

segunda-feira, setembro 29



"Mãe, que é que é o mar, mãe?"
Mar era longe, muito longe dali, espécie de lagoa
enorme, um mundo d'água sem fim.
Mãe mesma nunca tinha avistado o mar,
suspirava.
"Pois mãe, então o mar é o que a gente tem saudade"?

João Guimarães Rosa

Quando eu nasci

Quando eu nasci,

Ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,

Nem o Sol escureceu,

Nem houve Estrelas a mais...

Somente,

Esquecida das dores,

A minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,

Não houve nada de novo

Senão eu.

As nuvens não se espantaram,

Não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,

Bastava

Toda a ternura que olhava

Nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama, Serra-Mãe




Quando te tinha

Quando te tinha

Mãe

Não sabia

Que um dia

Havia

De te perder

Nem pensava

Sequer

Que podia

Não te ter

Não parava

Para te saborear

Para te saber

Tão precisa

À minha vida

Tão preciosa

Não gozava

A alegria

De te saber

Mãe

Viva

Teresa Rita Lopes, Cicatriz

quarta-feira, setembro 24


A alegria do pecado às vezes toma conta de mim

E é tão bom não ser divina

Me cobrir de humanidade me fascina

e me aproxima do céu

e eu gosto de estar na Terra cada vez mais

minha boca se abre e espera

o direito ainda que profano

do mundo ser sempre mais humano,

perfeição demais me agita os instintos.




Quem se diz muito perfeito

na certa encontrou um jeito insosso

pra não ser de carne osso

pra não ser carne osso

Paulinho Moska
Fly me to the moon,
(Voe comigo para a lua)
and let me play among the stars.
(E deixe-me brincar entre as estrelas)
Let me see what spring is like on Jupiter and Mars.
(Deixe-me ver qual primavera á como em Júpiter e Marte)
In other words, hold my hand!
(Em outras palavras, segure minha mão)
In other words, darling, kiss me!
(Em outras palavras, querido, beije-me)

Fill my heart with song,
(Encha meu coração com essa canção)
and let me sing forever more.
(E deixe-me cantar para além do sempre)
You are all I long for, all I worship and adore.
(Você é tudo que eu dejeso para, tudo que eu venero e adoro)
In other words, please be true!
(Em outras palavras, seja verdadeiro)
In other words, I love you!
(Em outras palavras, eu te amo)

Fly me to the moon,
(Voe comigo para a lua)
and let me play among the stars.
(E deixe-me brincar entre as estrelas)
Let me see what spring is like on Jupiter and Mars.
(Deixe-me ver qual primavera á como em Júpiter e Marte)
In other words, hold my hand!
(Em outras palavras, segure minha mão)
In other words, darling, kiss me!
(Em outras palavras, querido, beije-me)

Fill my heart with song,
(Encha meu coração com essa canção)
and let me sing forever more.
(E deixe-me cantar para além do sempre)
You are all I long for, all I worship and adore.
(Você é tudo que eu dejeso para, tudo que eu venero e adoro)
In other words, please be true!
(Em outras palavras, seja verdadeiro)
In other words, I love you!
(Em outras palavras, eu te amo)

Only you...
(Somente você...)
Only you!
(Somente você!)

Fill my heart with song,
(Encha meu coração com essa canção)
and let me sing forever more.
(E deixe-me cantar para além do sempre)
You are all I long for, all I worship and adore.
(Você é tudo que eu dejeso para, tudo que eu venero e adoro)
In other words, please be true!
(Em outras palavras, seja verdadeiro)
In other words, I love you!
(Em outras palavras, eu te amo)

In other words, I love you!
(em outras palavras, eu te amo)


terça-feira, setembro 23



Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores e andares comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

Alberto Caieiro in O guardador de rebanhos




Banhada pelo medo
de ser possuída
na correnteza
dos versos teus,
fiquei à tua margem
onde pensei estar segura
...
Fui fatalmente
empreenhada
pela doce poesia do teu leito

Lília Diniz

APAIXONADA



Oswaldo Antônio Begiato

Vens e dizes estar
Dissolutamente apaixonada.
Que sou tua reta e indivisa vida,
Que todas as tuas pertenças
São agora minhas pertenças:
Teu riso incontido,
Tuas lágrimas safíricas,
Teu sexo sequioso,
Teus descaminhos justos,
Teus arrependimentos tolos,
Teu coração indômito...

Até tuas mais incertas tristezas
Juras que me pertencem.
Juras que me pertencem
Todas as tuas juras.

E fico eu cá no meu canto
Tentando buscar a razão disso tudo.
O que em mim pode ter te encantado tanto,
Se sou, dentre os grãos dourados
Da areia da praia, o menorzinho
E você quase contém o mar todinho
Apenas em um único e terno olhar?

Teria sido a poesia que fingi escrever,
Ou os encantamentos delatores
Que de meus olhos escaparam
A primeira vez que te encontraram
Vestida de primavera e sol?

segunda-feira, setembro 22




Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores e andares comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

Alberto Caieiro in O guardador de rebanhos

Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo, mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo,
era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim

De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho

Que é escuro e frio, mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás



Cazuza e Frejat




“... pois desde que te vejo por um instante, não me é mais possível articular uma palavra: mas minha língua se quebra e um fogo sutil desliza de repente sob a minha pele: meus olhos não têm olhar, meus ouvidos zumbem, o suor escorre pelo meu corpo, um arrepio toma conta de mim; fico mais verde do que o capim, e por pouco me sinto morrer.”

Safo

Quando os amantes dormem



Quando as pessoas se amam e querem se amar, selam um pacto: dormir juntas.
E quando se fala "dormir juntos" o sentido é duplo:
significa primeiro amar acordado em plena vigília da carne, mas,
depois, na lassidão do pós-gozo, deixar os corpos lado a lado, à deriva, dormindo, talvez.
Na verdade, os amantes, quando são amantes mesmo, mesmo enquanto dormem se amam.

Agora ouço esses versos de Aragón cantados por Ferat:
"Durante o tempo que você quiser nós dormiremos juntos".
E penso. É um projeto de vida, dormir juntos, continuamente.
A mesma ambigüidade: dormir/amar juntos, dormir/acordar juntos, ou então,
dormir/morrer de amor juntos.

Deve ser por causa disto que os franceses chamam o orgasmo de "pequena morte".
Deve ser por isto que os amantes julgam poder continuar amando mesmo através da morte,
como Inês de Castro e D. Pedro, que foram sepultados um diante do outro,
para que no dia do reencontro um seja o primeiro que o outro veja.
Amor: um projeto de vida, um projeto de morte.

Se numa noite dessas o vento da insônia soprar em suas frestas,
repare no corpo dormindo despojado ao seu lado.
Ver o outro dormir é negócio de muita responsabilidade.
Mais que ver as águas de um rio represado gerando uma usina de sonhos,
é ver uma semente na noite pedindo um guardião.
Pode ser banal, mas é isto: amar é ser o guardião do sonho alheio.
Os surrealistas diziam: o poeta enquanto dorme trabalha.
Pois os amantes enquanto dormem, se amam.
Se amam inconscientemente, quando seus desejos enlaçam raízes e seivas.
O pé de um toca o pé do outro, a mão espalmada corre sobre o lençol e toca o corpo alheio e, dormindo, se abraçam animados.
Quando isso ocorre, pode ter vários significados.
Talvez um tenha lançado um apelo silencioso ao outro:
"Ajude-me a atravessar esse sonho", ou:
"Venha, sonhe esse sonho comigo, é bonito demais".
E o outro, às vezes, sem se mexer, parte em seu socorro.
É que certos sonhos, sobretudo os de quem ama, não cabem num só corpo.
Transbordam os poros da noite e pedem cumplicidade.
E se há um pesadelo, aí um se agarra ao tronco do outro na crispação do instante,
e o corpo do parceiro é bóia na escuridão.
Por isto, no ritual do casamento,
quando o sacerdote indaga se os que se amam sabem que terão que se socorrer
na saúde e na doença, na opulência e na miséria etc...
deveria se inserir um tópico a mais e advertir:
amar é ser cúmplice do sonho alheio.

Passar a metade da vida dormindo ao lado do outro.
Há pessoas que vivem 25 anos - bodas de prata, 50 anos - bodas de ouro,
75 anos - bodas de diamante - ao lado do outro, e não sabem com que o outro sonha.
E há quem passe uma tarde, uma noite ou uma temporada ao lado de um corpo e
sabe seus sonhos para sempre.
Engana-se quem escuta o silêncio no quarto dos que amam.
Estranhos rumores percorrem o sonho alheio.
Não é o rugir do tigre pelas brenhas.
Não é o bater das ondas na enseada.
Nem os pássaros perfurando a madrugada.
São os sonhos dos amantes em plena elaboração.

E se numa noite dessas o vento da insônia de novo soprar em suas frestas,
olhe pela janela os muitos apartamentos onde pulsam dormindo os amorosos.

Quando se compra um apartamento novo, nas alturas,
alguns compram lunetas e ficam vasculhando a vida alheia.
Mas para ouvir o ruído dos sonhos basta abrir os ouvidos na escuridão.
Os sonhos pulsam na madrugada.

Era uma vez um chinês que toda vez que sonhava com sua amada acordava perfumado.
Deve ser por isso que, ainda hoje, o quarto dos amantes amanhece com um perfume
de almíscar, lavanda e alfazema.

E é comum achar troféus dos sonhos ao pé da cama de quem ama.
Quando se abre a pálpebra do dia, aí pode-se ver um unicórnio de ouro e uma coroa de rubis.
À noite os sonhos dos amantes se cristalizam e de dia se liqüefazem em beijos e lágrimas.
Quem ama diz boa-noite como quem abre/fecha a porta de um jardim.
Não apenas como quem viaja, mas como quem vai para a colheita.
Quando se ama, acontece de um habitar o sonho do outro, e fecundá-lo.

Affonso Romano de Sant'Anna - in O homem que conheceu o amor

Recebi esse selo da Paty e repasso para:

domingo, setembro 21


Querido Helano,
Hoje eu comprei sementes de girassol.
Há isso de extraordinário no mundo.
Quando alguém se sente só ou com saudade de outrém
pode comprar sementes de girassol para vê-lo crescer.
Pode até fazer uma sementeira de tulipas.
Neste caso, é preciso aguar todos os dias,com a ponta dos dedos,
deixando cair uma ou duas gotas, apenas.
Já as coisas abrutalhadas, máquinas, tratores ou edifícios,
deixo aos outros, cuidarem.Também elas precisam de carícias:
não vê o homem pendurado nas vidraças com um pano molhado?
Não vê a máquina acarinhando a outra com a lixa?
Há muitas formas de cuidar.
E, felizmente, o delicado e o bruto na esfera do mundo.
Se me ocupo da semente é porque escuto o seu silêncio.
O silêncio com que ela abraça, tão brandamente, o seu grãozinho de terra.

Rita Apoena




De pé na frágil tábua
onda a onda ele escrevia
poesia sobre a água
.


Era uma escrita tão una
de tão perfeita harmonia
que o que ficava na espuma


não se podia apagar:
era a própria grafia
do poema do mar.

Manuel Alegre


Lili (Hi Lili, hi lo)

Um passarinho me ensinou
Uma canção feliz
E quando solitário estou
Mais triste do que triste sou
Recordo o que ele me ensinou
Uma canção que diz:
Eu vivo a vida cantando
Hi, Lili, hi, Lili, hi lo
Por isso sempre contente estou
O que passou, passou
O mundo gira depressa
E nessas voltas eu vou
Cantando a canção tão feliz que diz
Hi, Lili, hi, Lili, hi lo
Por isso é que sempre contente estou
Hi, Lili, hi, Lili, hi lo

Aquilo que pedimos aos céus


na maioria das vezes


se encontra em nossas mãos.


William Shakespeare




Alguns escrevem pela arte,
pela linguagem,
pela literatura.
Esses, sim, são os bons.
Eu só escrevo para fazer afagos.
E porque eu tinha de encontrar um jeito
de alongar os braços.
E estreitar distâncias.
E encontrar os pássaros:
há muitas distâncias em mim
(e uma enorme timidez).
Uns escrevem grandes obras.
Eu só escrevo bilhetes para escondê-los,
com todo cuidado,
embaixo das portas.


Rita Apoena


Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos

Ao abri-los ela não estará mais presente

Com seu sorriso e suas tramas.

Que ela surja, não venha; parta, não vá

E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber

O fel da dúvida. Oh, sobretudo

Que ela não perca nunca, não importa em que mundo

Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade

De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma

Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave



Vinícius de Moraes

Há gente que, em vez de destruir, constrói;


em lugar de invejar, presenteia;


em vez de envenenar, embeleza;


em lugar de dilacerar, reúne e agrega.


Lya Luft

"Os opostos se distraem

Os dispostos se atraem"


teatro mágico



A pintura é poesia



sem palavras.


Voltaire

A minha bicicleta
só tem dois pedais
mas se monto nela
não tem dois, tem mais !

A minha bicicleta
tem um guiador
quando monto nela...
...sou aviador!


No jardim onde ando
não vejo um canteiro...
sou aviador,
vejo o mundo inteiro


Voo mesmo a sério !...


Por cima das árvores
(não toco no chão!)
voo mesmo a sério
vou de avião...

A minha bicicleta
também tem selim
mas eu nem me sento,
gosto mais assim:


Pedalo em pé
dá mais rapidez
a minha bicicleta
é o que tu vês:


É um avião,
pois eu não te digo?!


Da próxima vez...

Da próxima vez
Levo-te comigo!

(Fernando Miguel Bernardes)

Imagina


Tom Jobim/Chico Buarque


Imagina, imagina
Hoje à noite a gente se perder
Imagina, imagina
Hoje à noite a lua se apagar
Quem já viu a lua cris?
Quando a lua começa a murchar
Lua cris
É preciso gritar e correr, socorrer o luar
Meu amor,
Abre a porta prá noite passar
E olha o sol da manhã
Olha a chuva, olha a chuva
Olha o sol
Olha o dia a lançar serpentinas
Serpentinas pelo céu, sete fitas coloridas
Sete vias
Sete vidas, avenidas, prá qualquer lugar
Imagina, imagina, imagina, imagina
Sabe que o menino que passar debaixo do arco-íris, vira moça vira
A menina que cruzar de volta o arco-íris rapidinho volta a ser rapaz
A menina que passou no arco
Era o menino que passou no arco
E vai virar menina
Imagina, imagina, imagina, imagina, imagina
Hoje à noite a gente se perder
Imagina, imagina

Hoje à noite, a lua se apagar

Moça na cama




Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça em ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no topor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros tem seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.

Adélia Prado

domingo, setembro 14


Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado.
E
Tem que ser convincente,mas de maneira diferente,do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto à tentação de dizer
Que o gesto não é só isto ... Quando tu, em confusão,
Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar.
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é... .!


Reinaldo Ferreira
Foi há muito tempo, mas descobri

que não é verdade o que dizem

a respeito do passado,

essa história de que podemos

enterrá-lo.

Porque de um jeito ou de outro,

ele sempre consegue escapar.


Khaled Hosseini

quinta-feira, setembro 11





... Mas eu deito-me no teu leito

quando apenas queria dormir em ti.



E sonho-te

quando ansiava ser um sonho teu...



- Mia Couto -

só quem possui

a força de uma amizade


consegue levar a vida

com leveza


Edu.giovanni



SONHO

O sonho é
um gato num quadro
a saltar para o nosso colo.

O sonho é
acreditar que um poema
pode mudar uma vida.

O sonho é
o olhar doce
de quem gosta de nós.

O sonho é
ter sempre
alguém à nossa espera.

O sonho é
a idade sem idade
das coisas que ficam.

O sonho é
não ter nada
e ser senhor de tudo.

O sonho é
ter os pés no chão
e continuar a voar.

O sonho é
fazer de cada palavra
um verdadeiro diamante.

O sonho é
ser verdadeiramente livre
e saber porquê.

- José Jorge Letria, in "O sonho é..."
Quedate...

Apareciste asi
Y fue el destino que nos quizo reunir
Algun camino de otro tiempo mas feliz
te trae denuevo aqui.

Mi vida amanecio
y cada luz de mi universo se encendio
En otro rostro me dijiste: aqui estoy yo
y yo te conoci
y mi vida te ofreci...

Quedate
que este tiempo es nuestro
y el amor tiene ganas de volver
Amor quedate
hoy no te me vayas como ayer

Te fuiste aquella vez
y yo en mis sueños tantas veces te busque
entre los angeles tu voz imagine
asi me conforme...
Pero ahora te encontre.

Quedate
que este tiempo es nuestro
y el amor tiene ganas de volver
amor quedate
no me dejes sola otravez.

Que la noche es larga
si no estoy contigo
Si otra vez me lanzas al avismo
si otra vez te vas......
Quedate....
Porfavor... por siempre...

Quedate
que este tiempo nuevo como el sol
nos abriga el corazon
amor quedate quedate
que no vuelva el frio en el adios

Quedate
que este tiempo es nuestro
y el amor solo quiere renacer
amor quedate quedate
hoy no te me vayas como ayer
hoy no te me vayas como ayer.


Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras
e só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz a música
que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto


Ruy Belo

quarta-feira, setembro 10

E quando duas pessoas maduras estão amando, simplesmente acontece um dos maiores paradoxos da vida, um dos fenômenos mais belos: estão juntas e contudo tremendamente sós; estão tão juntas que são quase uma .
(Osho)



Eu fui para uma floresta de nogueiras,
Porque minha mente estava inquieta,
Eu colhi e limpei algumas nozes,
E apanhei uma cereja, curvando o seu fino ramo;
E, quando as claras mariposas estavam voando,
Parecendo pequenas estrelas, flutuando erráticas,
Eu lancei framboesas, como gotas, em um riacho
E capturei uma pequena truta prateada.
Quando eu a coloquei no chão
E fui soprar para reativar as chamas,
Alguma coisa moveu-se e eu pude ouvir,
E, alguém me chamou pelo meu nome:
Apareceu-me uma jovem, brilhando suavemente
Com flores de maçãs nos cabelos
Ela me chamou pelo meu nome e correu
E desapareceu no ar, como um brilho mais forte.
Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos
Por tantas terras cheias de cavernas e colinas, recusar aceitar
ઇ‍ઉ ßë®ñåð놆ë: Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,
E beijar seus lábios e segurar suas mãos;
Caminharemos entre coloridas folhagens,
E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo
As prateadas maçãs da lua,
As douradas maçãs do sol.


William Butler Yeats

UM APÓLOGO


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

-Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo ?

-Deixe-me, senhora.

Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável?

Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabaça.

Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça.

Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

Mas você é orgulhosa.

Decerto que sou.

Mas por quê?

É boa ! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

Você? Esta agora é melhor. Você que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...

Também os batedores vão adiante do imperador.

Você imperador?

Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo.

Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela.

Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana – para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

-Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas.

A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura para o dia seguinte;continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se levava a agulha espetando corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, alinha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

Ora agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência,murmurou à pobre agulha: - Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém.

Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanado a cabeça: - Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
Machado de Assis