sábado, maio 8

Mãe...


“Devia ser proibido
uma saudade tão má
de uma pessoa tão boa
falar, gritar, reclamar
se a nossa voz não ecoa
dizer não vou mais voltar
sumir pelo mundo afora
alguém com tudo pra dar
tirar o seu corpo fora
devia ser proibido
estar do lado de cá
enquanto a lembrança voa
reviver, ter que lembrar
e calar por mais que doa
chorar, não mais respirar (ar)
dizer adeus, ir embora...”


Alice Ruiz e Itamar Assumpç
ão

sexta-feira, maio 7


Construí a casa sobre um chão de angústia

mas fi-la de modo a caber lá eu
e tudo o que trouxer de fora o coração.


António Rebordão Navarro

Mãe...
















Aquela negra


De enxada em punho,
lutando pela minha fome;
aquela negra que jorra suores na minha sede
e que vai de lenha na cabeça porque o frio me consome;
aquela negra
pobre, sem nada,
que vende os panos para me vestir;
que chora nas ruas o meu nome;
aquela negra é minha mãe.


Jorge Macedo

Aconteceu poesia





A poesia não é tão rara como parece.
Na mais ínfima das coisas
A poesia acontece.
Aconteceu poesia
Quando nos teus olhos cor do céu
Vi um pedaço de céu que me cabia.
Aconteceu poesia
Quando as tuas mãos numa carícia vaga
Moldaram no meu rosto ar de angústia
Que o tempo não apaga.
Aconteceu poesia
Quando nos teus olhos cor do céu
Vi um pedaço de céu que me fugia.
Até no dia em que morreste,Mãe,
Aconteceu poesia.


Fernando Vieira

“ Todas as pessoas do mundo

sorriem no mesmo idioma "


Morris Mandel






Aquilo que de verdadeiramente significativo podemos dar a alguém é o que nunca demos a outra pessoa, porque nasceu e se inventou por obra do afecto.
O gesto mais amoroso deixa de o ser se, mesmo bem sentido, representa a repetição de incontáveis gestos anteriores numa situação semelhante.
O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável.
Fundamentalmente, uma inocência.


Fernando Namora

“Ela queria o prazer do extraordinário que era tão simples de encontrar nas coisas comuns: não era necessário que a coisa fosse extraordinária para que nela se sentisse o extraordinário."

Clarice Lispector


quinta-feira, abril 29


"Quem trai seu amor por vaidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor."



Vinícius de Morais


O sonho, não. Esse eu mesmo carrego.

Leminski

terça-feira, abril 27


Justo a mim coube ser eu.

Mafalda

Me gusta que Epicuro se preocupe
para Ana Gorría

Me gusta que Epicuro se preocupe
por la forma redonda del granizo.

Que Francisco de Asís diga que el agua es casta
y el fuego, robusto.

Que en una breve carta a uno de sus amigos
Marguerite Yourcenar escriba «Gracias.
Gracias por el honor de compararme
con un árbol».

No sé por qué, estas cosas
curan mi corazón.
.
Juan Antonio González Iglesias

by_Nana viciouS



“Em silêncio nos olhávamos por cinco, dez minutos,

ela com as mãos na altura dos quadris,

agarrando,torcendo a própria saia.

E corava pouco à pouco até ficar bem vermelha,

como se em dez minutos passasse por seu rosto uma tarde de sol.

A um palmo de distância dela,

eu era o maior homem do mundo,

eu era o Sol"


Chico Buarque

domingo, abril 18


E a José apeteceu passar a mão sobre os cabelos daquela mulher linda e dizer menina e dizer menina, apeteceu-lhe passar a mão como uma brisa, só a palma da mão suave, e os dedos, os dedos, as pontas dos dedos entre os cabelos, a entrarem lentos entre os cabelos, a passarem lentos, e José a dizer menina, a dizer menina.

José Luis Peixoto in Nenhum Olhar



A linha e o linho

É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando, ponto a ponto, nosso dia-a-dia

E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O ziguezague do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa da paixão

A sua vida, o meu caminho, nosso amor
Você a linha, e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado a casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza

Gilberto Gil

Quando as pessoas se amam e querem se amar, selam um pacto: dormir juntas.
E quando se fala "dormir juntos" o sentido é duplo:
significa primeiro amar acordado em plena vigília da carne, mas,
depois, na lassidão do pós-gozo, deixar os corpos lado a lado, à deriva, dormindo, talvez.
Na verdade, os amantes, quando são amantes mesmo, mesmo enquanto dormem se amam.

Agora ouço esses versos de Aragón cantados por Ferat:
"Durante o tempo que você quiser nós dormiremos juntos".
E penso. É um projeto de vida, dormir juntos, continuamente.
A mesma ambigüidade: dormir/amar juntos, dormir/acordar juntos, ou então,
dormir/morrer de amor juntos.

Deve ser por causa disto que os franceses chamam o orgasmo de "pequena morte".
Deve ser por isto que os amantes julgam poder continuar amando mesmo através da morte,
como Inês de Castro e D. Pedro, que foram sepultados um diante do outro,
para que no dia do reencontro um seja o primeiro que o outro veja.
Amor: um projeto de vida, um projeto de morte.

Se numa noite dessas o vento da insônia soprar em suas frestas,
repare no corpo dormindo despojado ao seu lado.
Ver o outro dormir é negócio de muita responsabilidade.
Mais que ver as águas de um rio represado gerando uma usina de sonhos,
é ver uma semente na noite pedindo um guardião.
Pode ser banal, mas é isto: amar é ser o guardião do sonho alheio.
Os surrealistas diziam: o poeta enquanto dorme trabalha.
Pois os amantes enquanto dormem, se amam.
Se amam inconscientemente, quando seus desejos enlaçam raízes e seivas.
O pé de um toca o pé do outro, a mão espalmada corre sobre o lençol e toca o corpo alheio e, dormindo, se abraçam animados.
Quando isso ocorre, pode ter vários significados.
Talvez um tenha lançado um apelo silencioso ao outro:
"Ajude-me a atravessar esse sonho", ou:
"Venha, sonhe esse sonho comigo, é bonito demais".
E o outro, às vezes, sem se mexer, parte em seu socorro.
É que certos sonhos, sobretudo os de quem ama, não cabem num só corpo.
Transbordam os poros da noite e pedem cumplicidade.
E se há um pesadelo, aí um se agarra ao tronco do outro na crispação do instante,
e o corpo do parceiro é bóia na escuridão.
Por isto, no ritual do casamento,
quando o sacerdote indaga se os que se amam sabem que terão que se socorrer
na saúde e na doença, na opulência e na miséria etc...
deveria se inserir um tópico a mais e advertir:
amar é ser cúmplice do sonho alheio.

Passar a metade da vida dormindo ao lado do outro.
Há pessoas que vivem 25 anos - bodas de prata, 50 anos - bodas de ouro,
75 anos - bodas de diamante - ao lado do outro, e não sabem com que o outro sonha.
E há quem passe uma tarde, uma noite ou uma temporada ao lado de um corpo e
sabe seus sonhos para sempre.
Engana-se quem escuta o silêncio no quarto dos que amam.
Estranhos rumores percorrem o sonho alheio.
Não é o rugir do tigre pelas brenhas.
Não é o bater das ondas na enseada.
Nem os pássaros perfurando a madrugada.
São os sonhos dos amantes em plena elaboração.

E se numa noite dessas o vento da insônia de novo soprar em suas frestas,
olhe pela janela os muitos apartamentos onde pulsam dormindo os amorosos.

Quando se compra um apartamento novo, nas alturas,
alguns compram lunetas e ficam vasculhando a vida alheia.
Mas para ouvir o ruído dos sonhos basta abrir os ouvidos na escuridão.
Os sonhos pulsam na madrugada.

Era uma vez um chinês que toda vez que sonhava com sua amada acordava perfumado.
Deve ser por isso que, ainda hoje, o quarto dos amantes amanhece com um perfume
de almíscar, lavanda e alfazema.

E é comum achar troféus dos sonhos ao pé da cama de quem ama.
Quando se abre a pálpebra do dia, aí pode-se ver um unicórnio de ouro e uma coroa de rubis.
À noite os sonhos dos amantes se cristalizam e de dia se liqüefazem em beijos e lágrimas.
Quem ama diz boa-noite como quem abre/fecha a porta de um jardim.
Não apenas como quem viaja, mas como quem vai para a colheita.
Quando se ama, acontece de um habitar o sonho do outro, e fecundá-lo.

Affonso Romano de Sant'Anna - in O homem que conheceu o amor

sábado, abril 17

sexta-feira, abril 16



Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé – o meu – sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama.

Por fim o sono calmo, que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o meu pé descansando no teu pé,
a tua mão dormindo no meu seio.

Rosa Lobato de Faria

quarta-feira, abril 14

terça-feira, abril 13



Damas da luz e damas das trevas, damas de tudo o mais,
esta é uma prece por uma blueberry girl.
Primeiro que tudo, senhoras,
tende a bondade de poupá-la a escorregadelas e tropeções aos dezasseis,
permiti que se mantenha desperta e ajuizada, livre de pesadelos aos três,
de maridos que lhe entristeçam o olhar aos trinta,
de dias tristes aos catorze,
de falsas amigas aos quinze.
Permiti que tenha dias de coragem e de verdade.
Permiti que vá a lugares a que nunca nos permitiram que fôssemos
e que tenha sempre alegria na sua juventude.
Damas da graça e damas da mercê, damas de poder misericordioso,
esta é uma prece por uma blueberry gir
Concedei-lhe a vossa pureza de visão.
As palavras podem ser inquietantes,
as pessoas podem ser complexas
e os meios pouco claros.
Concedei-lhe a sabedoria de escolher o caminho direito,
livre de maldade e medo,
permiti que conte histórias e dance à chuva,
que dê cambalhotas, role e corra,
que as suas alegrias sejam tão altas como as suas tristezas profundas.
Permiti que cresça como uma erva ao sol.
Damas do paradoxo, damas do equilíbrio, damas das sombras que caem,
esta é uma prece por uma blueberry girl.
Ajudai-a a ajudar-se a si própria,
ajudai-a a levantar-se,
ajudai-a a perder-se e a encontrar-se,
ensinai-a que temos o tamanho dos nossos sonhos,
ensinai-a que a fortuna é cega,
que a verdade é uma coisa que ela terá de encontrar por si própria,
preciosa e rara como uma pérola.
Concedei todos estes dons e um pouco mais ainda a uma blueberry girl.

Neil Gaiman


Nosso amor é impuro
como impura é a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despido.
Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto

Quanto a mim, gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos de fogo do verão, aos barcos no vento; gosto das palavras lisas como seixos, rugosas como pão de centeio.
Palavras que cheiram a feno e a poeira, a barro e a limão, a resina e a sol.
Foi com essas palavras que fiz os poemas.
Palavras rumorosas de sangue, colhidas no espaço luminoso da infância, quando o tempo era cheio, redondo, cintilante.
As palavras necessárias para conservar ainda os olhos abertos ao mar, ao céu, às dunas, sem vergonha, como se os merecesse, e a inocência pudesse de quando em quando habitar os meus dias.
As palavras são a nossa salvação.


Eugénio de Andrade

A luz trocada em olhos que ficaram
subitamente cegos, e depois as palavras,
cautelosas, dizendo a seda
dos corpos sós. O desejo
foi polindo em silêncio
um fruto em busca da sua maturação.
A teu lado me deito e bebo a água
que tu me abres
e onde me perco e ardo e tudo.
Aqui tens o meu corpo cheio de mundo.
Amar-te é viagem que não se acaba
e contigo vou, para o alto
e para o fundo.

Casimiro de Brito

Se eu pudesse dizer-te: — senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém — Vê se adivinhas…
Então um fértil jogo amor seria.
Não este descerrar a mão vazia!


Alexandre O´Neill

Vem, serenidade!

faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros

e com que os ombros subam à altura dos lábios,

faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos
*
Raul de Carvalho



Mas fica.
Mas fica, meu amor.


Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar.


Chico Buarque


"Se o amor leva à felicidade,
se leva à morte,
se leva a algum destino. Se te leva.


E se vai, ele mesmo…
Não faças de ti,
um sonho a realizar.
Vai“


Cecília Meireles

domingo, abril 11


Um regaço para chorar

Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...
Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabar por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, de perigos grandes - penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das Coisas...
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas...

Bernardo Soares .Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

domingo, março 28

sexta-feira, março 19

Quadrado Mundo




Este teu monitor é o quadrado mundo que impede o navegante de ir além-mar. Fosse redondo eu poderia entrelaçar os meus dedos nos teus ou, quem sabe, buscar o horizonte onde divisam teus olhos. Mas nem os olhos me fariam alcançar, pois como as vidas, escondidas, que amanhecem e entardecem além do olhar, um abraço não se enxerga e sonhos um olhar não conta.

Ao mundo que ultrapassa o além-mar dos teus olhos:abraçar é preciso.

Rita Apoena
♥



A alegria é sempre a prova dos nove!"


Oswald de Andrade

...uma mordidinha para sentir o gosto
um cheirinho para sentir o perfume
um beijinho rápido, uma ilusãozinha
a quantos basta uma amostra grátis
não consigo molhar os pés apenas
eu mergulho e só paro quando me afogo
eu me queimo e só paro quando derreto
eu me jogo e só paro quando me param...


Martha Medeiros




O amor é vermelho.
O ciúme é verde.
Meus olhos são verdes.
Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros.
Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.


Clarice Lispector

Je Me Souviens


Flores de lís brancas sob um céu azul de cristal
Passeios sob uma neve em forma de estrela
Folhas de bordo na cor de uma paixão faltal
Eu não esqueço nada,
Eu me lembro...

Os cheiros de uma floresta que um grande lago devora
O reflexo de uma fogueira sobre nossos rostos pálidos
Uma luz intensa por noites boreais
Eu não esqueço nada,
Eu me lembro...

Eu amo teus poemas, teu coração, tua liberdade
És a unica terra onde
minha alma pousou...

Um sotaque que ninguém conhece os segredos
Um Francês que se lança em palavras já esquecidas
Uma maneira inigualável de cantar
Eu não esqueço nada,
Eu me lembro...

Eu amo tuas blasfêmias, tua fé, tua dignidade
És como uma ilha
de onde não se pode partir...

Eu amo teus poemas, teu coração, tua liberdade
És como uma ilha
de onde não se quer partir...

Paisagens que misturam o mais que perfeito
Desenhos que a natureza nunca mais fará
A impressão de ter entrado no jardim da paz
Eu não esqueço nada,
E eu retornarei...

quinta-feira, março 18

segunda-feira, março 15


~ Desejo ~

Desejo dizer-lhe as palavras mais profundas, mas não me atrevo, porque temo sua gozação. Por isso acho graça de mim mesmo e transformo em brincadeira meu segredo.
Duvido de minha angústia, para que você não duvide.
Desejo dizer-lhe as palavras mais sinceras, mas não me atrevo, porque temo que não acredite. Por isso as disfarço de mentiras e digo o contrário do que penso.
Me esforço para que minha angústia não pareça absurda para que você não ache que é.
Desejo dizer-lhe as palavras mais valiosas, mas não me atrevo, porque temo não ser correspondido. Por isso me declaro duramente e me orgulho de minha insensibilidade.
Desejo sentar-me silenciosamente a seu lado, mas não me atrevo, porque temo que meus lábios traiam meu coração. Por isso falo disparatadamente, escondendo meu coração atrás das minhas palavras.
Trato a mim mesmo com dureza, para que você não o faça.
Desejo separar-me de você, mas não me atrevo, porque temo que descubra minha covardia. Por isso levanto a cabeça e fico perto de você com ar indiferente.
A constante provocação de nossos olhares remove minha angústia sem piedade.
Tagore

segunda-feira, janeiro 11

sobre o plágio






Hoje uma leitora bem querida me enviou um email, dizendo que uma moça tem plagiado os meus textos. Confesso que até me ajeitei na cadeira, com ares de alguma importância, e fui lá conferir a homenagem. Reconheço que alguns textos até ficaram melhores do que o original e, se a moça não se importar, incorporarei as modificações, dando-lhe os devidos créditos, claro. Penso até que nem seja um plágio, mas que a moça esteja treinando o próprio estilo. Feito quando a gente aprende a andar de bicicleta e utiliza aquelas duas rodinhas de apoio. Logo logo, ela irá se desprender dos meus textos e deslizar pelas ruas com os seus braços abertos.

Rita Apoena


O meu mundo tem estado à tua espera; mas
não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,
nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei

que um poema se escreveria entre nós dois; mas
não comprei o vinho, não mudei os lençóis,
não perfumei o decote do vestido.

Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome
(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido);
se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira –
estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro
com a violência de um incêndio; mas parto
antes de saber como seria. Não me perguntes

porque se mata o sol na lâmina dos dias
e o meu mundo continua à tua espera:
houve sempre coisas de esguelha nas paisagens
e amores imperfeitos – Deus tem as mãos grandes”.


MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA


Aguardo a tua vinda!
E, embora me entristeça
Enquanto aguarde,
É tão linda a promessa
Que chego a desejar que venhas tarde!





Armando Pinheiro

OS MELHORES ANOS DA NOSSA VIDA

Acho que cada dia
É como em uma pesca milagrosa
É bom pescar sentado
Em uma nuvem macia e cor de rosa
Eu, um cavalheiro elegante
E você vestida como uma noiva
Enquanto lá fora, só a poeira consegue voar
Sinto o temporal no ar


Será que nos dois
Somos de um planeta distante
O mundo daqui
Parece um esconderijo secreto
Todos querem tudo
Mas o tudo é nada de certo
Nos não faremos como os outros, como toda gente
Estes serão ...


Os melhores anos da nossa vida
Os melhores anos da nossa vida
Me de um abraço forte
Pois não há noite infinita
Os melhores anos da nossa vida


É maravilhoso ficarmos abraçados
No escuro em silencio
Como boxers após a luta
Seremos os últimos sobreviventes
Talvez um dia a gente perceba
Que não nos perdemos nunca
E que toda aquela tristeza
Na realidade, nunca existiu


Maurizio Fabrizio, Guido Morra


(É melhor que não faças fitas, são pessoas de cerimônia as que estão cá hoje, deixa os chocolates em paz, não me obrigues a dar uma sapatada num cão que não se vê.)

Manuel Alegre


Queen of Hearts

Poema




visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

[Al Berto]

"É tão dificil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Dificilimo contar. Olhei para você fixamente por instantes. Tais momentos são meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo a isto estado agudo de felicidade."


Clarice Lispector

(...)
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.
.
Seus seios altos parecem
(Se ela tivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem Ter que haver madrugada.
.
E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.
.
Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como ?
.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

É inútil desistir.
Por detrás das muralhas da vontade
mora o desejo, a força que as derruba.
Deixa que nasça, que avolume e suba
esta maré de seiva e de ternura!
A grandeza do homem, criatura
que cresce enquanto ama e pode amar,
é saber
que só depois do gosto de pecar
lhe vem o gosto de se arrepender.


Miguel Torga, Terra Humana

Já vai alta a noite, vejo o negro do céu,
deitado na areia, o teu corpo e o meu.
Viajo com as mãos por entre as montanhas e os rios,
e sinto nos meus lábios os teus doces e frios.
E voas sobre o mar, com as asas que eu te dou,
e dizes-me a cantar: “É assim que eu sou”,
olhar para ti e ver o que eu vejo,
olhar-te nos olhos com olhares de desejo,
eu não tenho nada mais p’ra te dar,
esta vida são dois dias,
e um é para acordar,
das histórias de encantar.
Viagens que se perdem no tempo,
viagens sem princípio nem fim,
beijos entregues ao vento,
e amor em mares de cetim.
Gestos que riscam o ar,
e olhares que trazem solidão,
pedras e praias e o céu a bailar,
e os corpos que fogem do chão.

Pedro Abrunhosa, Viagens -