sexta-feira, novembro 12
terça-feira, novembro 9

Lenine/dudu Falção
Não soubesse
Prá que lado foi a vida
Por que tanta solidão?
E não é a dor
Que me entristece
É não ter uma saída
Nem medida na paixão...
Foi!
O amor se foi perdido
Foi tão distraído
Que nem me avisou
Foi!
O amor se foi calado
Tão desesperado
Que me machucou...
É como se a gente
Pressentisse
Tudo que o amor não disse
Diz agora essa aflição
E ficou o cheiro pelo ar
Ficou o medo de ficar
Vazio demais meu coração...
Foi!
O amor se foi perdido
Foi tão distraído
Que nem me avisou
Nem me avisou!
Foi!
O amor se foi calado
Tão desesperado
Que me maltratou...
terça-feira, novembro 2

Hoje te canto e depois no pó que hei de ser
Te cantarei de novo. E tantas vidas terei
Quantas me darás para o meu rosto outra vez amanhecer
Tentando te buscar. Porque vives de mim, Sem Nome,
Sutilíssimo amado, relincho do infinito e vivo
Porque sei de ti a tua fome, tua noite de ferrugem
Teu pasto que é o meu verso orvalhado de tintas
E de um verde negro teu casco e os areais
Onde me pisas fundo. Hoje te canto
E depois emudeço se te alcanço. E juntos
Vamos tingir o espaço. De luzes. De Sangue.
De escarlate.
Hilda Hilst
Este teu monitor é o quadrado mundo que impede o navegante de ir além-mar.
Fosse redondo eu poderia entrelaçar os meus dedos nos teus
ou, quem sabe, buscar o horizonte onde divisam teus olhos.
Mas nem os olhos me fariam alcançar,
pois como as vidas, escondidas,
que amanhecem e entardecem além do olhar,
um abraço não se enxerga e sonhos um olhar não conta.
Ao mundo que ultrapassa o além-mar dos teus olhos:
abraçar é preciso.
Rita Apoena
sábado, outubro 30
quarta-feira, outubro 13
Tu es mon autre
Gêmeo ou irmão
de nada, mas quem é você?
Você é meu maior mistério
Meu único lugar próximo
Tu me enrubeces e me embriona
E você me guarda em teus olhos
Você é o único animal de minha arca perdida
Aquela que faz de ti, meu outro, o ser reconhecido
Não há nada para compreender
E que passe ao intrusivo
Que não poderá esperar nada disso
Pois eu estou sozinha escutando
Os silêncios e quando eu tremo com isso
A força de minha fé
Minha fraqueza e minha lei
Minha insolência e meu direito
Se não fôssemos daqui
Seríamos o infinito
A arvore da nossa vida
nos manterá longe da sombra
Entre céu e o fruto
Mas nunca longe um do outro,
Nós seríamos amaldiçoados.
Você será meu ultimo segundo
Pois eu estou sozinha escutando
Os silêncios e quando eu tremo com isso
A força de minha fé
Minha fraqueza e minha lei
Minha insolência e meu direito
Se não fôssemos daqui
Seríamos o infinito
segunda-feira, outubro 11
quarta-feira, outubro 6
Confesso

Confesso
Frederico Valerio/ Jose Galhardo
Confesso que te amei, confesso
Não coro ao te dizer, não coro
Pareço outra mulher, ai, pareço
Mas lá chorar por ti, não choro
Fugir do amor tem seu preço
E a noite em claro atravesso,
longe do meu travesseiro
Começo a ver que não esqueço,
mas lá perdão não te peço,
sem que me peças primeiro
De rastros a teus pés, perdida te adorar
Até que me encontrei perdida
Agora já não és na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor na vida
Não penses mais em mim, não penses
Não estou nem para te ouvir por carta
Convences as mulheres, ai, convences
Estou farta de saber, estou farta
Não escrevas mais, nem me incenses
Quero que tu me diferences,
dessas que a vida te deu
A mim já não me pertences,
Vir a vencer-me não vences,
porque vencida estou eu
De rastros a teus pés, perdida te adorar
Até que me encontrei perdida
Agora já não és na vida o meu senhor
Mas foste o grande amor da minha vida
segunda-feira, outubro 4
Saudade...
Chico César e Paulinho Moska
Saudade a lua brilha na lagoa
Saudade a luz que sobra da pessoa
Saudade igual farol engana o mar
E imita o sol
Saudade sal e dor que o vento traz
Saudade o som do tempo que ressoa
Saudade o céu cinzento a garoa
Saudade desigual
Nunca termina no final
Saudade eterno filme em cartaz
A casa da saudade é o vazio
O acaso da saudade fogo frio
Quem foge da saudade
Preso por um fio
Se afoga em outras águas
Mas do mesmo rio

Dudu Falcão/ Lenine
Hoje eu encontrei a Lua
Antes dela me encontrar
Me lancei pelas estrelas
E brilhei no seu lugar
Derramei minha saudade
E a cidade se acendeu
Por descuido ou por maldade
Você não apareceu
Hoje eu acordei o dia
Antes dele te acordar
Fui a luz da estrela-guia
Pra poder te iluminar
Derramei minha saudade
E a cidade escureceu
Desabei na tempestade
Por um beijo seu
Nem a Lua, nem o Sol, nem Eu
Quem podia imaginar
Que o amor fosse um delirio seu
E o meu foi acreditar
Hoje o Sol não quis o dia
Nem a noite o luar.
Eu sei, o amor, eu sei
Não marqua hora nem lugar
Cansei, amor, cansei
A gente cansa de esperar
Hoje o Sol não quis o dia
domingo, outubro 3
Pedro Ayres Magalhães
Quem contar
Um sonho que sonhou
Não conta tudo o que encontrou
Contar um sonho é proibido
Eu sonhei
Um sonho com amor
E uma janela e uma flor
Uma fonte de água e o meu amigo
E não havia mais nada...
Só nós, a luz, e mais nada...
Ali morou o amor
(amor),
Amor que trago em segredo
Num sonho que não vou contar
E cada dia é mais sentido
Amor,
Eu tenho amor bem escondido
Num sonho que não sei contar
E guardarei sempre comigo
quarta-feira, setembro 29
domingo, setembro 26
Pack Up Eliza Doolittle
Eliza Doolittle - Pack Up
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Pack Up Eliza Doolittle
I get tired and upset
And I'm trying to care a little less
And I googoo, I only get depressed
I was taught to touch those issues I as told
Don't worry, there's no doubt
There's always something to cry about
When you're stuck in an angry crowd
They don't think what they say before they open their mouths
Pack up your drama and your old, big bag
And carry them to see the sea
I don't care what the people may say
What the people may say 'bout me
Pack up your drama and your old, big bag
Don't worry about the cavalry
I don't care what the whispers say
'Cause they whisper too loud for me
Hot topic, maybe I should drop it
It's a touchy subject
And I like to tiptoe 'round, the ship gone down
Got penny, no pound
So if your business is running out
It's not my business to talk about
They don't think what to say when they open their mouths
Pack up your drama and your old, big bag
And carry them to see the sea
I don't care what the people may say
What the people may say 'bout me
Pack up your drama and your old, big bag
Don't worry about the cavalry
I don't care what the whispers say
'Cause they whisper too loud for me
Tweet, tweet, tweet, tweet, tweet, tweet
Tweet, tweet, tweet, tweet, tweet, tweet
Tweet, tweet, tweet, tweet, tweet
Pack up your drama and your old, big bag
And carry them to see the sea
I don't care what the people may say
What the people may say 'bout me
Pack up your drama and your old, big bag
Don't worry about the cavalry
I don't care what the whispers say
'Cause they whisper too loud for me
Yeah, yeah, yeah
Yeah, yeah, yeah
Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono.
Música alta e silêncio.
Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser.
Não me limito, não sou cruel comigo!
Serei sempre apego pelo que vale a pena
e desapego pelo que não quer valer…
Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir,
de entrar em contato…
Ou toca, ou não toca.”
Clarice Lispector
sexta-feira, setembro 24
Homem pequenino

Solta o teu canário que quer voar...
Eu sou o canário que quer voar...
Eu sou o canário, homem pequenino,
Deixa-me escapar.
Estive na tua gaiola, homem pequenino,
Homem pequenino que gaiola me dás.
Digo pequenino porque não me entendes,
Nem me entenderás.
Tampouco te entendo, mas enquanto isso
Abre-me a gaiola que quero escapar;
Homem pequenino, amei-te meia hora.
Não me peças mais.
Alfonsina Storni
Tradução de Carlos Seabra

Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
num fundo de armário
na posta restante
milênios, milênios
no ar
E quem sabe, então, o Rio será
alguma cidade submersa,
os escafandristas virão
explorar sua casa
seu quarto, suas coisas
sua alma, desvãos
Sábios em vão
tentarão decifrar
oeco de antigas palavras,
fragmentos de cartas, poemas
mentiras, retratos
vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
que nada é pra já
amores serão sempre amáveis
futuros amantes, quiçá,
se amarão sem saber
com o amor que eu um dia
deixei pra você
Chico Buarque
quarta-feira, setembro 22

Juan Luis Guerra
Cuando te beso
Todo un océano me corre por las venas
Nacen flores en mi cuerpo cual jardín
Y me abonas y me podas, soy feliz
Y sobre mi lengua se desviste un ruiseñor
Y entre sus alitas nos amamos sin pudor
Cuando me besas
Un premio nóbel le regalas a mi boca
Cuando te beso
Te abres y cierras como ala de mariposa
Y bautiza tu saliva mi ilusión
Y me muerdes hasta el fondo la razón
Y un gemido se desnuda y sale de tu voz
Le sigo los pasos y me dobla el corazón
Cuando me besas
Se prenden todas las estrellas en la aurora
Y sobre mi lengua se desviste un ruiseñor
Y entre sus alitas nos amamos sin pudor
Cuando me besas
Un premio nóbel le regalas a mi boca
Cuando te beso
Tiembla la luna sobre el río y se reboza...
domingo, setembro 19
sexta-feira, setembro 17

"Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero o nuvem.
Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios.
Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas.
No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu. As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.
Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele foi. Quando me deixou, já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser ninguém.
Às vezes, contudo, ainda me adoece uma saudade desse homem. Lembro o tempo em que me encantei, tudo era um princípio. Eu era nova, dezanovinha.
Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeiríssimo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. O que havia feito era comerciar palavra, em negoceio de sentimento.
Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo.
Falar é outra coisa, vos digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra eu me divinizei.
Como perfume em que perdesse minha própria aparência.
Me solvia na fala, insubstanciada."
Mia Couto
quinta-feira, setembro 16

Quando voltamos para residência familiar, separados ou exilados, desempregados ou desencantados, descobrimos o quanto eles nos amam. Amam a criança que fomos. Nenhuma boneca foi jogada fora, enfileiradas pelo tamanho. Nenhum carinho desperdiçado. As canetas coloridas da escola guardam tinta. As agendas estão na gaveta, com as fotos dos amigos e as primeiras confidências. Os pôsteres das bandas de rock, que hoje nem fazem sentido, permanecem atrás da porta branca. As revistas proibidas seguem escondidas em uma madeira solta debaixo da cama. A mesma cômoda onde escrevemos cartas de amor e varamos a noite estudando para provas. O mesmo abajur preto, com problemas de contato. O mesmo enxoval, como se tivéssemos passado um longo final de semana fora (um final de semana que pode ter durado vinte anos), e retornássemos de uma hora para outra. O mesmo travesseiro com cheiro de nosso pijama. Os mesmos cabides e espelho. Até a pantufa nos aguarda, com a plumagem desalinhada de ovelha.
Tudo em ordem e recente, a apagar que lacramos a porta com um adeus, a esquecer que viramos o rosto para sermos felizes com nossas famílias. Os filhos são dramáticos e se despedem com adeus, mas vão voltar e voltam, mesmo que seja para se despedir verdadeiramente.
E não é apenas a aparência do quarto que resiste intacta. É o jeito como os pais nos tratam, sem censura e castigo, sem julgar as escolhas e precipitar arrependimentos. Em silêncio, a mãe fará o bolo de laranja predileto. Ruidoso, o pai perguntará se não queremos caminhar com ele. Ao sair, a mãe dirá para não esquecer o casaco, o pai avisará para nos cuidar e voltar cedo. O tratamento é idêntico, insuportavelmente idêntico à adolescência. A velhice não ameaça o amor.
Apesar de confiarmos que somos outros, os pais continuam nossa vida. Não interessa a cor de cabelo, a tatuagem, o piercing, a cicatriz, a ferida, a alegria ressentida, os fios grisalhos e os divórcios, os pais acreditam que somos os mesmos. Somos as crianças que eles deixaram crescer.''
Carpinejar

espera, de onde já não vem; sonha, entre realistas; concretiza, entre sonhadores;
fala de leite em reunião de bêbados; cria, onde o hábito rotiniza;
perde horas em coisas que só ele sabe importantes;
diz sempre na hora de calar; cala sempre nas horas erradas;
fala de amor no meio da guerra; deixa o adversário fazer o gol
porque gosta mais de jogar que de ganhar; aprendeu a superar o riso,
o deboche, o escárnio e a consciência dolorosa de que a média é má porque é igual;
vê mais longe do que o consenso; sente antes dos demais começarem a perceber;
se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham.'
Artur da Távola
domingo, setembro 12
Lara Fabian
Pequena rosa, abandonada
Procura um jardim carinhoso
Para cultivar a ternura
Perto de uma grande casa florida
Pequeno navio fugindo do inverno
Procura um capitão ao longo do seu curso
Para comandar uma viagem
Num oceano de amor
Desejo urgente
Te encontrar
Seja para a vida
Seja pelo verão
Apagar tudo
Recomeçar
Desejo urgente
Eu sou uma mulher doce e felina
E nas noites tenho um corpo andalúsio
O amor me rende aos seus abraços
Eu ignoro as proibições
Se você tem alma de um poeta
E você acha que está bem da cabeça
Se seu coração está feliz
Eu saberei dizer "Eu te amo"
Desejo urgente
Te encontrar
Seja para a vida
Seja pelo verão
Medo de morrer
Sem ser amada
Sem te encontrar mais uma vez...
sexta-feira, setembro 10
domingo, setembro 5
sábado, setembro 4
A sesta

espreita em cautela o sono dela dormindo na sombra da tangerineira.
E ela não dorme, espreita também de olhos descidos,
mentindo o sono, as vestes brancas do Pierrot
gatinhando silêncios por entre o amarelo dos girassóis.
E porque ele se vem chegando perto,
ela mente ainda mais o sono a mal-ressonar.
Junto dela, não teve mão em si
e foi descer-lhe um beijo mudo na negra meia aberta arejando o pé pequenino.
Depois os joelhos redondos e lisos,
e já se debruçava por sobre os joelhos,
a beijar-lhe o ventre descomposto,
quando ela acordou cansada de tanto sono fingir.
E ele ameaça fugida, e ela furta-lhe a fuga nos braços nus estendidos.
E ela, magoada dos remorsos de Pierrot, acaricia-lhe a fronte num grande perdão.
E, feitas as pazes, ficou combinado que ela dormisse outra vez.
José de Almada Negreiros

remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
- coisas que não dou a qualquer pessoa -
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que há durão, mal de chagas te comeu ?
Não, ele disse: é desprezo de amor.
No tempo d'eu menina
Mente ao meu coração
Que cansado de sofrer
Só deseja adormecer
Na palma da tua mão
Conta ao meu coração
Estória das crianças
Para que ele reviva
As velhas esperanças
Mente ao meu coração
Que cansado de sofrer
Só deseja adormecer
Na palma da tua mão
Conta ao meu coração
Estória das crianças
Para que ele reviva
As velhas esperanças
Mente ao meu coração
Mentiras cor-de-rosa
Que as mentiras de amor
Não deixam cicatrizes
E tu és a mentira mais gostosa
De todas as mentiras que tu dizes
segunda-feira, agosto 23
domingo, agosto 15

Faceira
Sou toda perfeita
E nada me enfeita
Sou toda de pluma
E nada me desarruma
Sou toda de flores
E nada me tira as cores
Sou toda obra prima
E nada me rima
Sou toda mulher
E nada me dá mais prazer
Sou toda de um
E nada de nenhum
Bernadette Moscareli
http://fadasuave.blogspot.com
Akira Blount e sua delicada arte
domingo, agosto 1
domingo, julho 11
Miedo
Miedo
Tienen miedo del amor y no saber amar
Tienem miedo de la sombra y miedo de la luz
Tienem miedo de pedir y miedo de callar
Miedo que da miedo del miedo que da
Tienem miedo de subir y miedo de bajar
Tienem miedo de la noche y miedo del azul
Tienem miedo de escupir y miedo de aguantar
Miedo que da miedo del miedo que da
El miedo es una sombra que el temor no esquiva
El miedo es una trampa que atrapó al amor
El miedo es la palanca que apagó la vida
El miedo es una grieta que agrandó el dolor
Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo que dá medo do medo que dá
Tenho medo de ascender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá
O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como um laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar
Tienem miedo de reir y miedo de llorar
Tienem miedo de encontrarse y miedo de no ser
Tienem miedo de decir y miedo de escuchar
Miedo que da miedo del miedo que da
Tenho medo de parar e medo de avançar
Tenho medo de amarrar e medo de quebrar
Tenho medo de exigir e medo de deixar
Medo que dá medo do medo que dá
O medo é uma sombra que o temor não desvia
O medo é uma armadilha que pegou o amor
O medo é uma chave, que apagou a vida
O medo é uma brecha que fez crescer a dor
El miedo es una raya que separa el mundo
El miedo es una casa donde nadie va
El miedo es como un lazo que se aprieta en nudo
El miedo es una fuerza que me impide andar
Medo de olhar no fundo
Medo de dobrar a esquina
Medo de ficar no escuro
De passar em branco, de cruzar a linha
Medo de se achar sozinho
De perder a rédea, a pose e o prumo
Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo
Medo estampado na cara ou escondido no porão
O medo circulando nas veias
Ou em rota de colisão
O medo é do Deus ou do demo
É ordem ou é confusão
O medo é medonho, o medo domina
O medo é a medida da indecisão
Medo de fechar a cara, medo de encarar
Medo de calar a boca, medo de escutar
Medo de passar a perna, medo de cair
Medo de fazer de conta, medo de dormir
Medo de se arrepender, medo de deixar por fazer
Medo de se amargurar pelo que não se fez
Medo de perder a vez
Medo de fugir da raia na hora H
Medo de morrer na praia depois de beber o mar
Medo... que dá medo do medo que dá
Miedo... que da miedo del miedo que da
Pedro Guerra/Lenine/Robney Assis
quarta-feira, junho 30

A melhor prova duma real amizade
está em evitar os compromissos entre aqueles que se estimam.
Ainda que devendo muito aos que muito me louvam,
eu não quero ser-lhes obrigada pela gratidão.
Mas sim grata porque estou com eles,
devido a circunstâncias que a todos nós agradam e são um laço mais entre nós,
sem constituírem um dever.
Eu pretendo dizer da amizade o que Diógenes dizia do dinheiro:
que ele o reavia dos seus amigos, e não que o pedia.
Pois aquilo que os outros têm pelo sentimento comum não se pede,
é património comum.
Neste caso, a amizade.
Agustina Bessa-Luís

a uma carta pluma
só se responde
com alguma resposta nenhuma
algo assim como se a onda
não acabasse em espuma
assim algo como se amar
fosse mais do que bruma
uma coisa assim complexa
como se um dia de chuva
fosse uma sombrinha aberta
como se, ai, como se,
de quantos como se
se faz essa história
que se chama eu e você
Paulo Leminsk
segunda-feira, junho 28
sábado, junho 26

DO MONÓLOGO DE MOLLY BLOOM
adoro flores
adoraria ter a casa toda nadando em rosas
meu Deus do céu
não tem nada no mundo como a natureza
as montanhas selvagens
depois o mar as ondas em tropel
e depois a beleza do campo as plantações de aveia e trigo
os animais pra cá pra lá tão bonitos
deve fazer bem à alma isso
ver os rios os lagos e as flores
e formas de todos os jeitos e cheiros
e cores saltando de tudo até do fosso
primaveras e violetas
é a natureza
e esses que dizem que Deus não existe
não dou nada pela ciência deles
porque não vão e criam alguma coisa
já perguntei pra ele tantas vezes
ateus ou sei lá como se chamam
primeiro que tratem de lavar sua sujeira
depois mandam chamar o padre aos berros
quando vão morrer
e por quê
por quê
porque tem pavor do inferno por causa da consciência pesada
ah sim
conheço bem esses
quem foi a primeira pessoa do universo
antes que existisse qualquer outra
quem fez tudo isso
quem
ah isso eles não sabem
e nem eu sei
pois é
eles podiam proibir o sol de nascer amanhã de manhã
o sol brilha é por tua causa
ele me disse no dia em que deitamos sobre os rododendros
no promontório de Howth
com se terno cinza e chapéu de palha
no dia em que fiz ele falar de casamento
foi
antes lhe passei com a boca um pedaço de bolo cheiroso
foi um ano bissexto também
há 16 anos meu Deus
depois daquele beijo que não acaba nunca
que quase me deixou sufocada
sim
ele me disse que eu era uma flor da montanha
sim
é isso mesmo
somos flores completamente
o corpo todo da mulher
sim
tai uma verdade que ele disse na vida
hoje o sol brilha por tua causa
sim
foi por isso que eu gostei dele
porque vi que ele entendia
ou sentia o que é uma mulher
e eu sabia que podia fazer dele o que eu quisesse
e fui dando a ele todo prazer que eu podia
para obrigá-lo a me pedir pra dizer sim
e eu não queria dizer logo
e fiquei só olhando para o mar e o céu
e pensando muitas coisas de que ele não sabia
em Mulvey e Mr. Stanhope e Hester
no pai
no velho Capitão Groves
nos marinheiros que brincavam de carniça e lava prato
assim diziam lá no cais
e no sentinela na frente da casa do governador
com aquela coisa em volta do capacete branco
pobre diabo meio assado
e as moças espanholas rindo com seus xales seus pentes altos
e os leilões de manhã
os gregos os judeus os árabes
e o diabo sabe lá quem mais
de todos os cantos da Europa
e Duke Street
e a feira de aves cacarejando defronte Larby Sharon
os burrinhos coitados que tropeçavam morrendo de sono
e uns sujeitos vagos com seus mantos dormindo nos degraus
na sombra
e as rodas enormes dos carros de touros
e o castelo de milhares de anos
sim
e aqueles mouros lindos de branco e turbante
como reis
pedindo a gente pra sentar em suas lojinhas de nada
e Ronda com as velhas janelas das posadas
olhos faiscando atrás da rótula
para o namorado beijar a treliça
e as tabernas meio abertas durante a noite
e as castanholas
e a noite em que perdemos o navio para Algeciras
o vigia que fazia a ronda sereno com sua lanterna
e oh essa horrível corrente lá no fundo
oh
e o mar
o mar às vezes escarlate como fogo
e o por-do -sol maravilhoso
as figueiras nos jardins da Alameda
sim
e todas aquelas ruazinhas engraçadas
as casas cor de rosa azul amarelas
e os jasmins os gerânios os cactos
e Gibraltar quando eu era mocinha
uma Flor da montanha
sim
quando pus a rosa como faziam as andaluzas
sim vou usar um vestido vermelho
e como ele me beijou debaixo da muralha mourisca
e eu pensei afinal tanto faz ele como qualquer outro
e então eu pedi a ele com os olhos pra pedir outra vez
sim
e então ele me perguntou se eu queria
sim
dizer sim
minha flor da montanha
e primeiro eu passei o braço
sim
e puxei ele pra mim para que sentisse meus seios perfumadíssimos
sim
e o coração dele batia feito louco
e sim
eu disse sim
eu quero muito
Sim
(James Joyce)



























