
sexta-feira, dezembro 3

quarta-feira, novembro 24

sábado, novembro 20
A complicada arte de ver

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.
Por isso _porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…
Rubem Alves
sexta-feira, novembro 12
No início
já havia tudo.
Mas Deus era cego
e, perante tanto tudo,
o que ele viu foi o Nada.
Deus tocou a água
e acreditou ter criado o oceano.
Tocou o chão
e pensou que a terra nascia sob os seus pés.
E quando a si mesmo se tocou
ele se achou o centro do Universo.
E se julgou divino.
Estava criado o Homem.
Mia Couto
terça-feira, novembro 9

Lenine/dudu Falção
Não soubesse
Prá que lado foi a vida
Por que tanta solidão?
E não é a dor
Que me entristece
É não ter uma saída
Nem medida na paixão...
Foi!
O amor se foi perdido
Foi tão distraído
Que nem me avisou
Foi!
O amor se foi calado
Tão desesperado
Que me machucou...
É como se a gente
Pressentisse
Tudo que o amor não disse
Diz agora essa aflição
E ficou o cheiro pelo ar
Ficou o medo de ficar
Vazio demais meu coração...
Foi!
O amor se foi perdido
Foi tão distraído
Que nem me avisou
Nem me avisou!
Foi!
O amor se foi calado
Tão desesperado
Que me maltratou...
terça-feira, novembro 2

Hoje te canto e depois no pó que hei de ser
Te cantarei de novo. E tantas vidas terei
Quantas me darás para o meu rosto outra vez amanhecer
Tentando te buscar. Porque vives de mim, Sem Nome,
Sutilíssimo amado, relincho do infinito e vivo
Porque sei de ti a tua fome, tua noite de ferrugem
Teu pasto que é o meu verso orvalhado de tintas
E de um verde negro teu casco e os areais
Onde me pisas fundo. Hoje te canto
E depois emudeço se te alcanço. E juntos
Vamos tingir o espaço. De luzes. De Sangue.
De escarlate.
Hilda Hilst
Este teu monitor é o quadrado mundo que impede o navegante de ir além-mar.
Fosse redondo eu poderia entrelaçar os meus dedos nos teus
ou, quem sabe, buscar o horizonte onde divisam teus olhos.
Mas nem os olhos me fariam alcançar,
pois como as vidas, escondidas,
que amanhecem e entardecem além do olhar,
um abraço não se enxerga e sonhos um olhar não conta.
Ao mundo que ultrapassa o além-mar dos teus olhos:
abraçar é preciso.
Rita Apoena
sábado, outubro 30
quarta-feira, outubro 13
Tu es mon autre
Gêmeo ou irmão
de nada, mas quem é você?
Você é meu maior mistério
Meu único lugar próximo
Tu me enrubeces e me embriona
E você me guarda em teus olhos
Você é o único animal de minha arca perdida
Aquela que faz de ti, meu outro, o ser reconhecido
Não há nada para compreender
E que passe ao intrusivo
Que não poderá esperar nada disso
Pois eu estou sozinha escutando
Os silêncios e quando eu tremo com isso
A força de minha fé
Minha fraqueza e minha lei
Minha insolência e meu direito
Se não fôssemos daqui
Seríamos o infinito
A arvore da nossa vida
nos manterá longe da sombra
Entre céu e o fruto
Mas nunca longe um do outro,
Nós seríamos amaldiçoados.
Você será meu ultimo segundo
Pois eu estou sozinha escutando
Os silêncios e quando eu tremo com isso
A força de minha fé
Minha fraqueza e minha lei
Minha insolência e meu direito
Se não fôssemos daqui
Seríamos o infinito
segunda-feira, outubro 11
quarta-feira, outubro 6
Confesso

Confesso
Frederico Valerio/ Jose Galhardo
Confesso que te amei, confesso
Não coro ao te dizer, não coro
Pareço outra mulher, ai, pareço
Mas lá chorar por ti, não choro
Fugir do amor tem seu preço
E a noite em claro atravesso,
longe do meu travesseiro
Começo a ver que não esqueço,
mas lá perdão não te peço,
sem que me peças primeiro
De rastros a teus pés, perdida te adorar
Até que me encontrei perdida
Agora já não és na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor na vida
Não penses mais em mim, não penses
Não estou nem para te ouvir por carta
Convences as mulheres, ai, convences
Estou farta de saber, estou farta
Não escrevas mais, nem me incenses
Quero que tu me diferences,
dessas que a vida te deu
A mim já não me pertences,
Vir a vencer-me não vences,
porque vencida estou eu
De rastros a teus pés, perdida te adorar
Até que me encontrei perdida
Agora já não és na vida o meu senhor
Mas foste o grande amor da minha vida
segunda-feira, outubro 4
Saudade...
Chico César e Paulinho Moska
Saudade a lua brilha na lagoa
Saudade a luz que sobra da pessoa
Saudade igual farol engana o mar
E imita o sol
Saudade sal e dor que o vento traz
Saudade o som do tempo que ressoa
Saudade o céu cinzento a garoa
Saudade desigual
Nunca termina no final
Saudade eterno filme em cartaz
A casa da saudade é o vazio
O acaso da saudade fogo frio
Quem foge da saudade
Preso por um fio
Se afoga em outras águas
Mas do mesmo rio

Dudu Falcão/ Lenine
Hoje eu encontrei a Lua
Antes dela me encontrar
Me lancei pelas estrelas
E brilhei no seu lugar
Derramei minha saudade
E a cidade se acendeu
Por descuido ou por maldade
Você não apareceu
Hoje eu acordei o dia
Antes dele te acordar
Fui a luz da estrela-guia
Pra poder te iluminar
Derramei minha saudade
E a cidade escureceu
Desabei na tempestade
Por um beijo seu
Nem a Lua, nem o Sol, nem Eu
Quem podia imaginar
Que o amor fosse um delirio seu
E o meu foi acreditar
Hoje o Sol não quis o dia
Nem a noite o luar.
Eu sei, o amor, eu sei
Não marqua hora nem lugar
Cansei, amor, cansei
A gente cansa de esperar
Hoje o Sol não quis o dia
domingo, outubro 3
Pedro Ayres Magalhães
Quem contar
Um sonho que sonhou
Não conta tudo o que encontrou
Contar um sonho é proibido
Eu sonhei
Um sonho com amor
E uma janela e uma flor
Uma fonte de água e o meu amigo
E não havia mais nada...
Só nós, a luz, e mais nada...
Ali morou o amor
(amor),
Amor que trago em segredo
Num sonho que não vou contar
E cada dia é mais sentido
Amor,
Eu tenho amor bem escondido
Num sonho que não sei contar
E guardarei sempre comigo
quarta-feira, setembro 29
domingo, setembro 26
Pack Up Eliza Doolittle
Eliza Doolittle - Pack Up
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Pack Up Eliza Doolittle
I get tired and upset
And I'm trying to care a little less
And I googoo, I only get depressed
I was taught to touch those issues I as told
Don't worry, there's no doubt
There's always something to cry about
When you're stuck in an angry crowd
They don't think what they say before they open their mouths
Pack up your drama and your old, big bag
And carry them to see the sea
I don't care what the people may say
What the people may say 'bout me
Pack up your drama and your old, big bag
Don't worry about the cavalry
I don't care what the whispers say
'Cause they whisper too loud for me
Hot topic, maybe I should drop it
It's a touchy subject
And I like to tiptoe 'round, the ship gone down
Got penny, no pound
So if your business is running out
It's not my business to talk about
They don't think what to say when they open their mouths
Pack up your drama and your old, big bag
And carry them to see the sea
I don't care what the people may say
What the people may say 'bout me
Pack up your drama and your old, big bag
Don't worry about the cavalry
I don't care what the whispers say
'Cause they whisper too loud for me
Tweet, tweet, tweet, tweet, tweet, tweet
Tweet, tweet, tweet, tweet, tweet, tweet
Tweet, tweet, tweet, tweet, tweet
Pack up your drama and your old, big bag
And carry them to see the sea
I don't care what the people may say
What the people may say 'bout me
Pack up your drama and your old, big bag
Don't worry about the cavalry
I don't care what the whispers say
'Cause they whisper too loud for me
Yeah, yeah, yeah
Yeah, yeah, yeah
Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono.
Música alta e silêncio.
Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser.
Não me limito, não sou cruel comigo!
Serei sempre apego pelo que vale a pena
e desapego pelo que não quer valer…
Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir,
de entrar em contato…
Ou toca, ou não toca.”
Clarice Lispector
sexta-feira, setembro 24
Homem pequenino

Solta o teu canário que quer voar...
Eu sou o canário que quer voar...
Eu sou o canário, homem pequenino,
Deixa-me escapar.
Estive na tua gaiola, homem pequenino,
Homem pequenino que gaiola me dás.
Digo pequenino porque não me entendes,
Nem me entenderás.
Tampouco te entendo, mas enquanto isso
Abre-me a gaiola que quero escapar;
Homem pequenino, amei-te meia hora.
Não me peças mais.
Alfonsina Storni
Tradução de Carlos Seabra

Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
num fundo de armário
na posta restante
milênios, milênios
no ar
E quem sabe, então, o Rio será
alguma cidade submersa,
os escafandristas virão
explorar sua casa
seu quarto, suas coisas
sua alma, desvãos
Sábios em vão
tentarão decifrar
oeco de antigas palavras,
fragmentos de cartas, poemas
mentiras, retratos
vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
que nada é pra já
amores serão sempre amáveis
futuros amantes, quiçá,
se amarão sem saber
com o amor que eu um dia
deixei pra você
Chico Buarque
quarta-feira, setembro 22

Juan Luis Guerra
Cuando te beso
Todo un océano me corre por las venas
Nacen flores en mi cuerpo cual jardín
Y me abonas y me podas, soy feliz
Y sobre mi lengua se desviste un ruiseñor
Y entre sus alitas nos amamos sin pudor
Cuando me besas
Un premio nóbel le regalas a mi boca
Cuando te beso
Te abres y cierras como ala de mariposa
Y bautiza tu saliva mi ilusión
Y me muerdes hasta el fondo la razón
Y un gemido se desnuda y sale de tu voz
Le sigo los pasos y me dobla el corazón
Cuando me besas
Se prenden todas las estrellas en la aurora
Y sobre mi lengua se desviste un ruiseñor
Y entre sus alitas nos amamos sin pudor
Cuando me besas
Un premio nóbel le regalas a mi boca
Cuando te beso
Tiembla la luna sobre el río y se reboza...
domingo, setembro 19
sexta-feira, setembro 17

"Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero o nuvem.
Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios.
Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas.
No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu. As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.
Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele foi. Quando me deixou, já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser ninguém.
Às vezes, contudo, ainda me adoece uma saudade desse homem. Lembro o tempo em que me encantei, tudo era um princípio. Eu era nova, dezanovinha.
Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeiríssimo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. O que havia feito era comerciar palavra, em negoceio de sentimento.
Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo.
Falar é outra coisa, vos digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra eu me divinizei.
Como perfume em que perdesse minha própria aparência.
Me solvia na fala, insubstanciada."
Mia Couto
quinta-feira, setembro 16

Quando voltamos para residência familiar, separados ou exilados, desempregados ou desencantados, descobrimos o quanto eles nos amam. Amam a criança que fomos. Nenhuma boneca foi jogada fora, enfileiradas pelo tamanho. Nenhum carinho desperdiçado. As canetas coloridas da escola guardam tinta. As agendas estão na gaveta, com as fotos dos amigos e as primeiras confidências. Os pôsteres das bandas de rock, que hoje nem fazem sentido, permanecem atrás da porta branca. As revistas proibidas seguem escondidas em uma madeira solta debaixo da cama. A mesma cômoda onde escrevemos cartas de amor e varamos a noite estudando para provas. O mesmo abajur preto, com problemas de contato. O mesmo enxoval, como se tivéssemos passado um longo final de semana fora (um final de semana que pode ter durado vinte anos), e retornássemos de uma hora para outra. O mesmo travesseiro com cheiro de nosso pijama. Os mesmos cabides e espelho. Até a pantufa nos aguarda, com a plumagem desalinhada de ovelha.
Tudo em ordem e recente, a apagar que lacramos a porta com um adeus, a esquecer que viramos o rosto para sermos felizes com nossas famílias. Os filhos são dramáticos e se despedem com adeus, mas vão voltar e voltam, mesmo que seja para se despedir verdadeiramente.
E não é apenas a aparência do quarto que resiste intacta. É o jeito como os pais nos tratam, sem censura e castigo, sem julgar as escolhas e precipitar arrependimentos. Em silêncio, a mãe fará o bolo de laranja predileto. Ruidoso, o pai perguntará se não queremos caminhar com ele. Ao sair, a mãe dirá para não esquecer o casaco, o pai avisará para nos cuidar e voltar cedo. O tratamento é idêntico, insuportavelmente idêntico à adolescência. A velhice não ameaça o amor.
Apesar de confiarmos que somos outros, os pais continuam nossa vida. Não interessa a cor de cabelo, a tatuagem, o piercing, a cicatriz, a ferida, a alegria ressentida, os fios grisalhos e os divórcios, os pais acreditam que somos os mesmos. Somos as crianças que eles deixaram crescer.''
Carpinejar

espera, de onde já não vem; sonha, entre realistas; concretiza, entre sonhadores;
fala de leite em reunião de bêbados; cria, onde o hábito rotiniza;
perde horas em coisas que só ele sabe importantes;
diz sempre na hora de calar; cala sempre nas horas erradas;
fala de amor no meio da guerra; deixa o adversário fazer o gol
porque gosta mais de jogar que de ganhar; aprendeu a superar o riso,
o deboche, o escárnio e a consciência dolorosa de que a média é má porque é igual;
vê mais longe do que o consenso; sente antes dos demais começarem a perceber;
se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham.'
Artur da Távola
domingo, setembro 12
Lara Fabian
Pequena rosa, abandonada
Procura um jardim carinhoso
Para cultivar a ternura
Perto de uma grande casa florida
Pequeno navio fugindo do inverno
Procura um capitão ao longo do seu curso
Para comandar uma viagem
Num oceano de amor
Desejo urgente
Te encontrar
Seja para a vida
Seja pelo verão
Apagar tudo
Recomeçar
Desejo urgente
Eu sou uma mulher doce e felina
E nas noites tenho um corpo andalúsio
O amor me rende aos seus abraços
Eu ignoro as proibições
Se você tem alma de um poeta
E você acha que está bem da cabeça
Se seu coração está feliz
Eu saberei dizer "Eu te amo"
Desejo urgente
Te encontrar
Seja para a vida
Seja pelo verão
Medo de morrer
Sem ser amada
Sem te encontrar mais uma vez...
sexta-feira, setembro 10
domingo, setembro 5
sábado, setembro 4
A sesta

espreita em cautela o sono dela dormindo na sombra da tangerineira.
E ela não dorme, espreita também de olhos descidos,
mentindo o sono, as vestes brancas do Pierrot
gatinhando silêncios por entre o amarelo dos girassóis.
E porque ele se vem chegando perto,
ela mente ainda mais o sono a mal-ressonar.
Junto dela, não teve mão em si
e foi descer-lhe um beijo mudo na negra meia aberta arejando o pé pequenino.
Depois os joelhos redondos e lisos,
e já se debruçava por sobre os joelhos,
a beijar-lhe o ventre descomposto,
quando ela acordou cansada de tanto sono fingir.
E ele ameaça fugida, e ela furta-lhe a fuga nos braços nus estendidos.
E ela, magoada dos remorsos de Pierrot, acaricia-lhe a fronte num grande perdão.
E, feitas as pazes, ficou combinado que ela dormisse outra vez.
José de Almada Negreiros

remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
- coisas que não dou a qualquer pessoa -
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que há durão, mal de chagas te comeu ?
Não, ele disse: é desprezo de amor.
No tempo d'eu menina
Mente ao meu coração
Que cansado de sofrer
Só deseja adormecer
Na palma da tua mão
Conta ao meu coração
Estória das crianças
Para que ele reviva
As velhas esperanças
Mente ao meu coração
Que cansado de sofrer
Só deseja adormecer
Na palma da tua mão
Conta ao meu coração
Estória das crianças
Para que ele reviva
As velhas esperanças
Mente ao meu coração
Mentiras cor-de-rosa
Que as mentiras de amor
Não deixam cicatrizes
E tu és a mentira mais gostosa
De todas as mentiras que tu dizes
segunda-feira, agosto 23
domingo, agosto 15

Faceira
Sou toda perfeita
E nada me enfeita
Sou toda de pluma
E nada me desarruma
Sou toda de flores
E nada me tira as cores
Sou toda obra prima
E nada me rima
Sou toda mulher
E nada me dá mais prazer
Sou toda de um
E nada de nenhum
Bernadette Moscareli
http://fadasuave.blogspot.com
Akira Blount e sua delicada arte



























