domingo, dezembro 12


Debruça-te, amor
e colhe-me a manhã

bebe-me o hálito
morde-me os gemidos

eu sou o copo
de cicuta
(o vinho)

com o qual envenenas
os sentidos


Maria Teresa Horta

Cosi-te a mim

em poema

bordadas

as palavras

fios de vida


João Rui de Sousa


“A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá

mas não pode medir os seus encantos.

A ciência não pode calcular

quantos cavalos de força existem nos encantos de um sabiá.

Quem acumular muita informação

perde o condão de adivinhar: divinare.

Os sabiás divinam. ''

MANOEL DE BARROS

«Eu sou insaciável;
mal um desejo surge,
outro desponta,
e em mim há sempre latente
a febre do sonho e do desejo,
e quando possuo alguma coisa de infinitamente consolador,
[como é a sua amizade,
desejo mais,
mais ainda,
mais sempre!
Conhece-se em mim o afecto, o amor, a ternura por um egoísmo implacável
que quer tornar muito meus,
e só meus,
os corações que se me dedicam um pouco.
Dá isto muitas vezes
o resultado de me suceder
o mesmo que sucedeu ao cão
que largou a presa pela sombra,
pois querendo muito,
muito perdeu.»



Florbela Espanca

Eu entro nesse barco, é só me pedir.
Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou.
Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso
preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou.
Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando
em torno de mim mesma.Mas olha, eu só entro nesse barco
se você prometer remar também!
Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes.
Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito,
vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer
que vai remar também, com vontade!
Mas você tem que remar também.
Eu desisto fácil, você sabe.
E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos,
mas eu entro nesse barco, é só me pedir.
Perco o medo de dirigir só pra atravessar
o mundo pra te ver todo dia.
Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir.
Mas a gente tem que afundar junto
e descobrir que é possível nadar junto.
Eu te ensino a nadar, juro!
Você tem que me prometer
que essa viagem não vai ser a toa,que vale a pena.
Que por você vale a pena.
Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar.



Caio fernando Abreu


O mundo é mágico.

As pessoas não morrem, ficam encantadas.


João Guimarães Rosa

Que fiques boa depressa
de alergia ou qualquer dor,
mas que nunca sares dessa
doença de amar-me, Amor!


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, dezembro 7

sexta-feira, dezembro 3


Na espera havia perdido a força das coxas,
a dureza dos seios,
o hábito da ternura,
mas conservava intacta a loucura do coração

Gabriel Garcia Marquez


Sou dessas mulheres sinuosas, de colo curvilíneo e sorriso enluarado.
Em mim perdem-se e acham-se os sonhos.
De medidas extremas. Tanto no outono quanto na primavera.
Gosto de gostar.
Gosto do prazer, sou tátil, feminina.
Sim, admiro a beleza longilínea e vertical, mas herdei a horizontalidade esteatopígea.
Não caibo em padrões.
Respiro livre, sem a rigidez imposta por aí.
Invisto meu tempo em outros prazeres : dedico-me a ser feliz.
Porque para o amor há sempre uma pessoa de medidas certas.
E, se meus seios cabem em suas mãos,
então sou (só) para você.
É por isso que, como cantou Ana Carolina, prefiro ser
destas mulheres prá comer com dez talheres.

Solange Maia


"Que lindos olhos, que lindos olhos tem você
Que ainda hoje, que ainda hoje eu reparei
S’eu reparasse, s’eu reparasse a mais tempo
Eu não amava, eu não amava quem amei."


Que lindos olhos, Villa-Lobos




"Por fora, já desistiu. Por dentro, sempre descobre alguma desculpa para recomeçar."


(Fabrício Carpinejar)



wonderland
(I'll use my hands)


A casinha do monte

Moça, já ergui lá no monte uma casinha pequena
Fiz uma rocinha pra gente
Ter uma fonte de renda
Que ainda este ano
Você vai, você vai morar comigo.
Moça, já plantei um jardim
Com as mais belas flores
Pedi pra lua e as estrelas abençoar
Nossas noites de amores
Que ainda esse ano você vai
Você vai morar comigo.
Sou um roceiro apaixonado
Tenho muito pouco pra lhe oferecer
Mas o amor maior do mundo lá na roça moça
Tá guardado pra você
Sou um roceiro apaixonado
Já arrumei pra nós dois sobreviver
A casinha lá no monte tá enfeitada moça
Esperando por você.

San Marino



quarta-feira, novembro 24


''Amor para mim é doideira, descontrole, soluço de árvore na estrada. Andar de cadarços desamarrados, levar os ciscos e as ervas para a casa. Arrastar as folhas e o solo. Varrer a rua em direção à casa, em movimento inverso. Sujar a casa de mundo, de premência.

Invejo quem programa seu casamento com antecedência, com dois ou três anos de noivado. Nunca fui assim, de fazer maquete, de brincar de casa de boneca, de planejar cada passo. ...
Invejo quem só casa após segurança financeira. Amor nunca me concedeu segurança.
Invejo quem condiciona o enlace a uma lua-de-mel no exterior.
Que seja na saúde e na doença de cara, na alegria e na tristeza de cara.

Relâmpago não é tão bonito sem chuva. Relâmpago sem chuva pede esmola. Quero a chuva junto do clarão, o marulhar das calhas, a água nas escadas das telhas.
Sou do amor fulminante, como um enfarte. Perder a razão. Casar na hora, em dias, esquecer que não era possível, esquecer as dificuldades, esquecer os entraves e pormenores. Não dar tempo para criar problemas. Não dar tempo para ponderar com opiniões dos próximos. Não aceitar conselhos de ressaca, decidir ébrio e arrepender-se amando. Ultrapassar-se.
Não sei como montei minha casa. Amor junta os pertences, não reclama. Faz funcionar o que não existe. Deixo a demora para Deus, sou mesmo apressado em mim para ser lento no corpo dela.
Invejo quem faz lista de presentes em lojas e recebe metade da casa mobiliada depois da aliança na mão esquerda. A aliança nem conheceu minha mão direita. Mal cumprimentou. Não recebi nada que está em casa, não tive poupança, fundos de investimento. Recebo os amigos. Sobrevivi, pois precisava. Não há desculpa para sobreviver.
Invejo quem premedita o casamento, conhece os pais dela devagarinho, faz as reivindicações antes do contrato, briga por teimosia e capricho pelo tom das paredes e marca dos ladrilhos. Que escolhe a cor do cachorro para combinar com o capacho.
Não consigo.
Caso para quebrar as regras, para me aproximar no ato, para não deixar o inferno dourar a pele. Entro no primeiro apartamento e fico. Os livros já são estantes. Ponho o colchão no chão e subo devagarinho com os meses.
Caso rápido porque nunca fui sozinho dentro de mim, porque a saliva é água potável, porque amor é urgência.
Ajeita-se a vida como pode. Um dia a menos não será depois um dia a mais. Caso em segredo, a dois. Beijo tem muito despudor para ter medo.
Não me exibo, caso. Não faço futuro, caso logo para fazer passado.


CARPINEJAR

''- Que importa o mal que te atormenta,
se o sonho te contenta
e pode realizar-se?''

(do filme Cinderela)


- No meu não vai ter pedra, só mar'

Caio F.



sábado, novembro 20

A complicada arte de ver





Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.

Por isso _porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

Rubem Alves