
Lua de prata de leite
Que tens um ar de amarela,
Quem foi que te pôs de enfeite
Ao céu, se não és estrela?
Fernando Pessoa








Uma vez, quando eu era menina, choveu grossocom trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,trinta anos depois.
Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,meu marido ficou triste até a morte,eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.
Adélia Prado





Flora Figueiredo








