quarta-feira, novembro 5


Acorda bailarina
Nos braços do poeta
Faça um pas-de-deux
Com minh’alma.
Leonor Cordeiro

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias



David Mourão-Ferreira


Dile al pájaro que sólo hay árbolesen mi corazón.






Clara Janés



DA PROPENSÃO A PERDER AS CHAVES


Tenho perdido muitas chaves pela vida.
A chave do êxito extraviou-se num século
cujas chaves não decifro neste pentagrama
de louca transcendência.
A da felicidade caiu no mar dos absurdos
e meu escafandro estava cheio de furos.
A do conhecimento está em algum lugar
que não sei precisar
buscá-la é ofício do vigia
que faz a barba em minha pupila.
A da imortalidade pesava tanto
tive que desfazer-me dela
para seguir vivendo.
A do teu coração profundo e espesso
só abria duas de suas sete portas.
A única chave que conservo
preserva minha inocência
em algum lugar da caixa do corpo.
Só para não perdê-la
Escrevo versos.

Consuelo Tomás



domingo, novembro 2

“A felicidade suprema na vida é a convicção de sermos amados."
- Victor Hugo

sábado, novembro 1

Quase poema



Ando pela casa,

inquietude nos pés,

à volta das coisas mudas,

como se o poema me pudesse ser dito.


O quê dizer e quando?

Em que lugar esconde-se

a ordem das palavras,

que me permita estar próxima de alguma poesia?


Nada interessa às buganvílias da varanda,

ou ao menino que brinca lá fora.

O dia é calmo

como todos os domingos em que choveu.


Assisto ao filme francês,

quieta.

Como se tudo fosse assim,

pacífico.

Fumo um cigarro,

mordo a maçã .

Com a naturalidade de quem não vive o paradoxo,

discretamente.

E sinto escapar-me dos dedos

a poesia do mundo.


Como encontrar o verso que diga

a falta que me atravessa,

o impacto do silêncio?

As palavras são tantas

e são nenhuma.

O poema não é meu,

nem teu,

nem de ninguém.


Ando à procura dele

como quem procura um bálsamo.

Entardece o longo dia de verão

e não estás onde disseste que estarias.


Por um momento,

em gestos lentos,

acaricio o sonho,

os lábios no beijo mais longo que o dia.

Mas não, não sou de sonhos,

ou crenças,

não vivo de sombras.

Talvez mesmo não seja de poemas,

este encontro aleatório de palavras

com nexo obscuro.


Assim, levanto-me

e me preparo para ir comprar cigarros.


Dentro de mim

um cello murmura

certa música distante.


Silvia Chueire

Cansei os braços
a pendurar estrelas no céu.
Destino dos fados lassos.
Tudo termina em cansaços
braços
e estrelas
e eu.

António Gedeão
Vem aos meus sonhos,
faz em mim a tua casa....
vê os labirintos por onde me perco,...
a lua cruel da minha solidão....
vem aos meus sonhos,
ilumina o meu domingo de cinzas,
o meu domingo de ramos,
o meu calvário,
diz que estás aqui,...

José Agostinho Baptista

No caderno da menina lia-se:

Há nas lesmas qualquer coisa de gente
e nas pedras uma vontade de sono
no caracol um desejo solitário de lar
nas plantas rasteiras uma fome de terra
e nos fins-de-tarde um cheiro de coisa velha
- como velhas são minhas tias, minha avó, minha mãe.

E sem saber mais da (i)mobilidade das coisas,
a menina fechou o caderno...
(ela desconhecia, mas sob seus pés, repousavam asas)


Vássia Silveira

sexta-feira, outubro 31


Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.



Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.


Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que as coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para vê-las assim.


Cecília Meireles

quarta-feira, outubro 29

Inevitable

Si es cuestion de confesar
no se preparar cafe
y no entiendo de futbol.

Creo que alguna vez fui infiel
juego mal hasta el parkes
y jamas uso reloj.

Y para ser mas franca
nadie piensa en ti como lo hago yo
aunque te de lo mismo.

Si es cuestion de confesar
nunca duermo antes de diez
ni me baño los domingos.

La verdad es que tambien
lloro una vez al mes
sobre todo cuando hay frio.

Conmigo nada es facil
ya debes saber
me conoces bien.
(y sin ti todo es tan aburrido)

El cielo esta cansado ya de ver
la lluvia caer.
Y cada dia que pasa es uno mas
parecido a ayer.
No encuentro forma alguna de olvidarte
porque seguir amandote es inevitable.



Ya sabras la situacion
aqui todo esta peor
pero al menos aun respiro.

No tienes que decirlo
no vas a volver te conozco bien.
(ya buscare que hacer conmigo)


Siempre supe que es mejor
cuando hay que hablar de dos
empezar por uno mismo.

Shakira


E ao anoitecer

e ao anoitecer adquires nome de ilha
ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto



O Poema Original




Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

Ary dos Santos

Eu Gosto de Elefantes




♥ Eric Herman

Elefantes. Eu gosto de elefantes.
Eu gosto de como eles pulam de árvore em árvore.

Macacos. Eu gosto de macacos.
Eu gosto de como eles nadam pelo oceano.

Peixinhos. Eu gosto de peixinhos.
Eu gosto de como eles coçam as pulguinhas e latem pro carteiro.


Você tem que gostar de cachorrinhos.
Enroladinhos no batente da janela, ronronando e perseguindo ratinhos.

Gatos. Eu gosto de gatos.
Eu gosto de como eles dizem "Cocoricóoo"!


Galos. Eu gosto de galos.
Eu gosto de como eles galopam e trotam.

Cavalos. Eu gosto de Cavalos.
Eu gosto de como eles pegam as colméias atrás do mel.

Ursos. Eu gosto de ursos.
Eu gosto de como eles pulam alto pra pegar as mosquinhas e sentam na vitória-régia.

Você tem que gostar de sapinhos!
Correndo por um labirinto atrás de queijo.



Ratinhos. Eu gosto de Ratinhos.
Eu gosto de como eles dizem "Oinc! Oinc! Oinc!".

Porquinhos. Eu gosto de porquinhos.
Eu gosto de como eles saltitam e comem cenoura.

Coelhinhos. Eu gosto de coelhinhos.
Eu gosto de como eles pisoteiam através da floresta com suas trombas cinzas.

Elefantes. Eu gosto de elefantes...


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas


Adília lopes

Trois allumettes une à une allumées dans la nuit
La première pour voir ton visage
La seconde pour voir tes yeux
La dernière pour voir ta bouche
Et l'obscurité tout entière pour me rappeler tout cela
En te serrant dans mes bras.

Jacques Prévert

Três fósforos acesos um a um durante a noite
O primeiro para ver teu rosto
O segundo para ver teus olhos
O último para ver tua boca
E a escuridão inteirinha para lembrar tudo isso
Estreitando-te em meus braços

Tradução Amélia Pais

Vou pronunciar o teu nome




quando estiver sozinho,



sentado entre as sombras dos meus pensamentos silenciosos.




Vou pronunciá-lo sem palavras e sem motivo.



Sou como a criança que chama cem vezes por sua mãe,



alegre de apenas poder falar "mãe".







Rabindranath Tagore, in "A Colheita
Escrevemos.

Até as palavras

Serem carne,

E o poema

A foz

Do nosso gozo.

Violeta Teixeira





Pintei os sapatos de verde
para pisar um relvado.
Pus um vestido de rosas
com seu perfume encarnado.

Colei pratas nas janelas
como estrelas amarelas.

Fiz de uma vassoura
de pernas para o ar
uma palmeira
ao vento a cantar.

Baloiçando o baloiço
do velho cortinado
voei enfim
pelo meu jardim
inventado.


Luísa Ducla Soares






"Madame, a senhora tem entre as pernas

um instrumento capaz de dar prazer a milhares

e a única coisa que sabe fazer com ele é arranhá-lo!"



Sir Thomas Beecham,

maestro e compositor inglês,

para uma péssima violoncelista.



Valsa Quase Antidepressiva



dança comigo a primeira valsa da primavera:
dança sem sonhos, esquece as promessas, ninguém nos espera.
já enchi os dias de lutas vazias:
estou gasto, cansado e dormente.
E a um pouco de sexo ou muita poesia,
ainda não fico indiferente.

Fala comigo na palavra falsa da fantasia:
chovem amigos na festa da praça do meio dia.
é certo que as flores parecem maiores
que toda a virtude do mundo:
com um pouco de sexo ou muita poesia
ainda me sinto profundo.

se este mundo fosse feito para ser doce
eu seria doce fosse eu quem fosse.
foge comigo na última volta da maratona,
nada comigo num lago de metadona.
já deixei as asas na cave e as chaves no fundo do mar:
com um pouco de sexo ou muita poesia
ainda nos vamos casar.

JP Simões


Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita


Lídia Jorge












Se a tranquilidae da água permite refletir as coisas,o que não poderá a tranquilidade do espírito?


Chuang Tzu






EU OUÇO MÚSICA


ouço música como quem apanha chuva:
resignado
e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo...



Eu ouço música como quem está morto
e sente
já
um profundo desconforto
de me verem ainda neste mundo de cá...


Perdoai,
maestros,
meu estranho ar!


Eu ouço música como um anjo doente
que não pode voar.

Mário Quintana























"Quando a tua maior fraqueza é o amor,

és a pessoa mais forte do mundo."

Garman Wold
"O mal de quase todos nós

é que preferimos ser arruinados pelo elogio

a sermos salvos pela crítica."


- Norman Vincent
"Se nós era pássaro, nós voar e ir ver a si.

Depois voltar"

- Karen Blixen


"(...)Mas o bom mesmo, são os adjetivos,
Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.
Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. luminoso.
Sonoro. Lento. Eu sonho
Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.
Ainda mais:
Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido:
Basta provares o seu gosto... "

Mario Quintana


POESIA


Irás ouvi-la, a musa; ela bate três vezes. Depois não bate mais...

A senha é o absurdo.
Assim começa o segredo que esconde a mensagem derradeira...

Sentar-te-ás no escuro esperando as três pancadas. Não te iludas com a chegada dos três porquinhos,
ou do velho que manca com uma bengala. O que massacra a Esfinge no final do jogo.

O desfecho é o absurdo, sem o qual a rota da mensagem derradeira está inçada de significado, e a
incerteza de tudo está em toda a parte...

Russell Edson

segunda-feira, outubro 27


"agora que não estás deixa que rompa o meu peito em soluços!
te enrustiste em minha vida e cada hora que passa
é mais por que te amar
a hora derrama o seu óleo em mim...
e sabes de uma coisa?
cada vez que o sofrimento vem
essa saudade de estar perto se longe
ou estar mais perto se perto
que é que eu sei!
essa agonia de viver fraco o peito extravasado
essa incapacidade de me sentir mais eu orfeu
tudo isso que é bem capaz de confundir o espírito de um homem
nada disso tem importância quando tu chegas
com esse contentamento essa harmonia esse corpo!
e me dizes essas coisas que me dão essa força
essa coragem
esse orgulho de rei
meu verso meu silêncio minha música!
nunca fujas de mim
sem ti sou nada
sou coisa sem razão
orfeu menos eurídice...
coisa incompreensível!
a existência sem ti é como olhar um relógio
só com os ponteiros dos minutos
tu és a hora és o que dá sentido e direcção ao tempo
qual mãe qual pai qual nada!
a beleza da vida és tu amada
vai ao teu caminho que eu vou-te seguindo
no pensamento e aqui me deixo rente
quando voltares pela lua cheia
para os braços sem fim do teu amigo
vai à tua vida pássaro contente
vai à tua vida que estarei contigo!"










vinícius de moraes

terça-feira, outubro 21


Não sabes, criança? Estou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

Castro Alves
Formosura,
procura encontrar-te no amor,
não na adulação do espelho.


Rabindranath Tagore

De Gramática e de Linguagem




E havia uma gramática que dizia assim:
"Substantivo (concreto) é tudo quanto indica
Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta".
Eu gosto das cousas. As cousas sim !...
As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso.
As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém.
Uma pedra. Um armário. Um ovo, nem sempre,
Ovo pode estar choco: é inquietante...)
As cousas vivem metidas com as suas cousas.
E não exigem nada.
Apenas que não as tirem do lugar onde estão.
E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.
Para quê? Não importa: João vem!
E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,
Amigo ou adverso...João só será definitivo
Quando esticar a canela. Morre, João...
Mas o bom mesmo, são os adjetivos,
Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.
Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. luminoso.
Sonoro. Lento. Eu sonho
Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.
Ainda mais:
Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido:
Basta provares o seu gosto...

Mario Quintana
POESIA


Irás ouvi-la, a musa; ela bate três vezes. Depois não bate mais...

A senha é o absurdo.
Assim começa o segredo que esconde a mensagem derradeira...

Sentar-te-ás no escuro esperando as três pancadas. Não te iludas com a chegada dos três porquinhos,
ou do velho que manca com uma bengala. O que massacra a Esfinge no final do jogo.

O desfecho é o absurdo, sem o qual a rota da mensagem derradeira está inçada de significado, e a
incerteza de tudo está em toda a parte...

Russell Edson

Aguardo a tua vinda!
E, embora me entristeça
Enquanto aguarde,
É tão linda a promessa
Que chego a desejar que venhas tarde!

Armando Pinheiro

Receita de Felicidade

Pegue uns pedacinhos de afeto e de ilusão;
Misture com um pouquinho de amizade;
Junte com carinho uma pontinha de paixão
E uma pitadinha de saudade.

Pegue o dom divino maternal de uma mulher
E um sorriso limpo de criança;
Junte a ingenuidade de um primeiro amor qualquer
Com o eterno brilho da esperança.

Peça emprestada a ternura de um casal
E a luz da estrada dos que amam pra valer;
Tenha sempre muito amor,
Que o amor nunca faz mal.
Pinte a vida com o arco-íris do prazer;
Sonhe, pois sonhar ainda é fundamental
E um sonho sempre pode acontecer.

(Toquinho)



A saudade é um filme sem cor
que meu coração quer ver colorido.
Zeca Baleiro

sexta-feira, outubro 17


A minha vontade é forte, mas a minha disposição de obedecer-lhe é fraca.
Carlos Drummond de Andrade


"Se eu me magôo e passo a odiar quem foi insensível comigo,
esse problema é MEU, não do outro.
O outro apenas não correspondeu às minhas expectativas,
não deu o colo que eu achava que merecia,
não foi o amigo que eu queria que tivesse sido.
Ele foi ELE.
EU é que queria que ele tivesse agido diferente.
Então EU sou o responsável pelo que sinto". Léa Waider

Divagação sobre a palavra dormir


Divagação sobre a palavra dormir

Gostava de te olhar a dormir

mesmo que isso nunca aconteça.

Gostava de te olhar,

a dormir. Gostava de dormir

contigo, entrar

no teu sono, sentir seu fluxo suave e nebuloso

a deslizar sobre a minha cabeça

e caminhar contigo nessa floresta luminosa

ondulante de folhas fluorescentes

com um sol aquoso e três luas

até à caverna onde terás que descer,

em direcção ao teu pior medo

Gostava de te oferecer o ramal de prata,

a pequenina flor branca, aquela

palavra que te protegerá

da dor a meio

do teu sonho, do desgosto

central. Gostava de te acompanhar

até ao cimo da longa escadaria

mais uma vez e de ser

o barco para te transportar de volta

com cuidado, uma chama

entre duas mãos em concha

onde o teu corpo se deita
ao lado do meu, e tal como nele entras

com a facilidade com que se respira

Gostava de ser o ar

que te habita durante um breve

instante. Gostava de se ser tão imperceptível

e tão necessária.

Margaret Atwood

Cotovelos


Tapa bem os braços

Não deixes que os teus cotovelos

se mostrem.

É isto o que os meus vizinhos

dizem lá pra baixo, em Alabama,

às suas filhas

para que nenhum cotovelo

roliço ou magro

moreno ou rosado

possa atrair alguém

até à paixão.

No entanto, se eu imaginasse

que os meus flácidos, bicolores

cotovelos te iriam seduzir

se eu imaginasse

que os meus secos, ossudos

cotovelos te poderiam prender

agitava os meus braços

como um galo

como um pavão real

como uma galinha-da-índia

quando te voltar a ver

amor

arregaço

as mangas e vou

pecar

pecar

pecar


Minnie Bruce Pratt

quinta-feira, outubro 16


Senhora D fala a Ehud
(...) como se eu tocasse sozinho um instrumento, qualquer um, baixo, flautim, pistão, oboé, como se eu tocasse sozinho apenas um momento da partitura, mas o concerto todo onde está? Desperdícios sim, tentar compor o discurso sem saber do seu começo e do seu fim ou o porquê da necessidade de compor o discurso, o porquê de tentar situar-se, é como segurar o centro de uma corda sobre o abismo e nem saber como é que se foi parar ali, se vamos para a esquerda ou para a direita, ao redor a névoa, abaixo um ronco, ou acima?

Ehud responde

isso de procurar a orquestra, senhora D,
é coisa de vadios, sabe-se lá, mudaram-se todos,
que te importa o som de todos se tens o teu?


Hilda Hilst in A obscena senhora D

Ai, quem me dera



Ai quem me dera, terminasse a espera
E retornasse o canto simples e sem fim...
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim

Ai quem me dera percorrer estrelas
Ter nascido anjo e ver brotar a flor
Ai quem me dera uma manhã feliz
Ai quem me dera uma estação de amor

Ah! Se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais

Ai quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afins
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim

Ai quem me dera ouvir o nunca mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E finda a espera ouvir na primavera
Alguem chamar por mim...


Vinícius de Moraes
Com o amor não se brinca sem castigo.

August Strindberg



Quando ela fala




Quando ela fala, parece

Que a voz da brisa se cala;

Talvez um anjo emudece

Quando ela fala.


Meu coração dolorido

As suas mágoas exala.

E volta ao gozo perdido

Quando ela fala.


Pudesse eu eternamente

Ao lado dela, escutá-la,

Ouvir sua alma inocente

Quando ela fala.


Minh'alma, já semimorta,

Conseguira ao céu alçá-la,

Porque o céu abre uma porta

Quando ela fala.

Machado de Assis


«Se querem que as vossas crianças sejam inteligentes, leiam-lhes contos de fadas.
Se querem que elas sejam mais inteligentes, leiam-lhes mais contos de fadas.»

Einstein





terça-feira, outubro 14





Há pessoas que com
uma só palavra
despertam ilusões
e roseirais;
que com um mero sorriso nos olhos
nos convidam a viajar
por outras terras,
nos dão a conhecer toda a magia do mundo.
Há pessoas que com Um mero toque
Quebram a solidão, põem a mesa, servem um banquete
e colocam grinaldas;
que com uma simples viola
fazem uma sinfonia caseira
Há pessoas a quem basta
Abrir a boca
Para tocar nos confins da alma,
Alimentar uma flor,
Inventar sonhos,
Fazer cantar o vinho nas pipas,
Como se fossem a coisa mais simples do mundo.
E assim vamos de braço dado
Com a vida,
Desterrando uma morte solitária,
Pois sabemos que ao virar da esquina
Há pessoas assim,
Tão necessárias...

Hamlet Lima Quintana

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo! Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto! Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...

Cecília Meireles
Quando o sol visita minha estreita janela,
deixa réstias de luz espalhadas
sobre a minha cadeira preferida
onde descanso a falta de sono, de sonho.
A esperança sempre me pareceu vestir cetim enquanto eu,
envolta em panos simples,
vivo estampando cores e formas.
Um dia por vez.

Cuido dos poucos, mas fartos planos.
E asseguro-lhes que as horas têm mãos
que aquecem borboletas até alçarem vôos enigmaticamente perfeitos.
Quantas vezes o que parece não ter rumo nem prumo, voa...?

Diana-Dru

'Foi um processo longo e difícil,
como sempre o são as aproximações
entre duas pessoas habituadas a estarem sozinhas.
Primeiro parece fácil, é o coração que arrasta a cabeça,
a vontade de ser feliz que cala as dúvidas e os medos.
Mas depois é a cabeça que trava o coração,
as pequenas coisas que parecem derrotar as grandes,
um sufoco inexplicável que parece instalar-se
onde dantes estava a intimidade.
É preciso saber passar tudo isso
e conseguir chegar mais além, onde a cumplicidade
- de tudo, o mais díficil de atingir -
os torna verdadeiramente amantes'


[Miguel Sousa Tavares]


Tome-se
Um poeta não cansado,
Uma nuvem de sonho e uma flor ,
Três gotas de tristeza , um tom dourado,
Uma veia sangrando , de pavor.

Quando a massa já ferve e se retorce ... Deita-se a luz dum corpo de mulher.
De uma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta ... assim requer !

José Saramago