sábado, junho 19






O verão é um senhor gordo sentado na varanda e reclamando cerveja.
O inverno é um vovozinho tiritante.
O outono, um tio solteirão.
A primavera, em compensação, é uma menina pulando na corda.

Mário Quintana



E guardo num canto escondido, mas tão escondido,
que corro o risco de procurar e não achar.
E quando acho, dói. Mas dói bonito.
Junto com a dor vem uma sensação de alívio por ter vivido.


Cris Guerra

quinta-feira, junho 17

O Diálogo Eterno


Paulo Mendes Campos,reuniu dois grandes poetas criando este magnífico diálogo entre um homem e uma mulher. A composição respeita a integridade dos versos de Cecília Meireles, em sua "Obra Poética" e de Emílio Moura, em "Itinerário Poético".

Ele: Porque não te conheci menina?
Ela: Fui morena e magrinha como qualquer polinésia, e comia mamão, e mirava a flor de goiaba. E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras...
Ele: Porque não te conheci quando ias para o colégio?
Ela: Conservo-te meu sorriso para, quando me encontrares ver que ainda tenho uns ares de aluna do paraíso.
Ele: Teu sorriso é tão puro que te ilumina toda.
Ela: Quero apenas parecer bela.
Ele: Nunca te entendo, tantas te vejo. Qual a que vive, qual a que inventas?
Ela: A vida só é possível reinventada.
Ele: E a vida, que é?
Ela: Ando à procura de espaço para o desenho da vida. Saudosa do que não faço, do que faço arrependida.
Ele: De repente, tudo se torna tão irreal que te sinto invisível.
Ela: Digo-te que podes ficar de olhos fechados sobre o meu peito, porque uma ondulação maternal de onda eterna te levará na exata direção do mundo.
Ele: Tudo em ti é viagem. Viajas até mesmo ao redor de tua inacreditável imobilidade.
Ela: Até em barco navega quem para o mar foi fadada.
Ele: Eis a nossa fraqueza: essa necessidade de compreender e de sermos compreendidos, essa febre de ser, esse espanto...
Ela: Agora compreendo o sentido e a ressonância que também trazes de tão longe em tua voz.
Ele: Eu queria que me pertencesses como a cor à luz, como a poesia ao poeta.
Ela: Tenho fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha.
Ele: Tenho medo de mim, de ti, de tudo... Cada gesto que fazes é uma aventura nova que se inicia.
Ela: Nunca eu quisera dizer palavra tão louca...
Ele: Quero-te muito. É como quem recria uma rosa.
Ela: Sou como todas as coisas: e durmo e acordo em tua cabeça, com o andar do dia e da noite, o abrir e o fechar das portas.
Ele: Sonho. És sonho. É tarde, é cedo?
Ela: Quero um dia para chorar. Mas a vida vai tão depressa!
Ele: Ah, ser contraditório, dividido, disperso!
Ela: Somos um ou dois? Às vezes, nenhum. E em seguida, tantos.
Ele: Vieste do Cântico dos Cânticos: "Os teus cabelos são como um rebanho de cabras..."
Ela: Já fui loura, já fui morena, já fui Margarida e Beatriz. Já fui Maria e Madalena. Só não pude ser como quis.
Ele: Sonho que surges diante de mim como quem desce do Líbano.
Ela: Serás o Rei Salomão? Por isso, em meu corpo vão brotando em mornos canteiros, incenso, mirra, e a canção.
Ele: Fabrico uma esperança como quem apaga algo sujo num muro e ali, rápido, escreve: Futuro.
Ela: Uma palavra caída da montanha dos instantes desmancha todos os mares e une as terras mais distantes.
Ele: É sonho o sonho?
Ela: Nunca existiu sonho tão puro como o da minha timidez.
Ele: Na verdade, eu já te esperava desde o princípio.
Ela: O mar imóvel de teus olhos...
Ele: És linda como a manhã que nasce. Que amor o meu! Olha: até parece que somos eternos, livres e eternos.
Ela: Tu és como o rosto das rosas, diferente em cada pétala.
Ele: E a rosa, a rosa o que será?
Ela: A surda e silenciosa, e cega e bela e interminável rosa.
Ele: Quanto mais nos falamos, mais sinto necessidade de ti. Que nos ficou de tudo o que não fomos?
Ela: Nada sei. De nada. Contemplo.
Ele: Estou diante de ti. Nu e silencioso. Porque não prevaleces deste instante e não me revelas quem sou?
Ela: Ah! Se eu nem sei quem sou...
Ele: Para onde vão os teus caminhos? De onde vêm eles?
Ela: Primeiro, foram os verdes e águas e pedras da tarde, e meus sonhos de perder-te e meus sonhos de encontrar-te. Mas depois houve caminhos pelas florestas lunares, e, mortos em meus ouvidos, mares brancos de palavras. E eram flores encarnadas, por cima das folhas verdes. (E entre os espinhos de prata, só meus sonhos de perder-te...).
Ele: Aqui, estou, tímido e humilde.
Ela: Pois aqui estou, cantando.
Ele: Agora que estou diante de ti, já não me pertenço.
Ela: Nossas perguntas e respostas se reconhecem como os olhos dentro dos espelhos. Olhos que choraram.
Ele: Tua presença me invade como a revelação do irreal.
Ela: Conversamos dos dois extremos da noite, como de praias opostas.
Ele: Diante dos meus olhos matinais, as coisas se ordenam simples e perfeitas: o céu, o mar, teu corpo. Ah, o teu corpo!
Ela: Por mais que me procure, antes de tudo ser feito, eu era amor.
Ele: Que tudo o mais é perdido.

domingo, junho 13

Virgem




Ela era virgem
E o vento alisava seus pêlos pr'ela suspirar
E era um namoro selvagem de sexo de ventania
E quando o vento não vinha
Ela mesmo corria pra ventar
Ela era virgem
E o mar só lambia suas coxas pr'ela se molhar
E ela era só maresia em dia de tempestade
Ela deixava a cidade a abria suas
pernas para o mar
E roçava os cães com a pele cálida
Pássaros com a mão cobras no ar
E amava tigres e leões gatos nos porões
E à noite dormia encharcada


Oswaldo Montenegro

sábado, junho 12


Eu morria de ti
Mas tu eras o meu viver

Tu ias comigo
Tu cantavas em mim
Quando percorria as ruas
Sem nenhum destino
Tu ias comigo
Tu cantavas em mim

Tu convidavas os pardais apaixonados do meio das árvores
Para a manhã da janela
Quando a noite se embaciava
Quando a noite não se acabava
Tu convidavas os pardais apaixonados do meio das árvores
Para a manhã da janela

Tu davas as tuas mãos
Tu davas o teu carinho
Quando eu tinha fome
Tu davas a tua vida
Tu eras generoso como a luz
Tu vinhas ao nosso beco com as tuas luzes
Tu vinhas com as tuas luzes
Quando as crianças partiam
E as pétalas das acácias adormeciam
E eu ficava sozinha no espelho
Tu vinhas com as tuas luzes…
Tu colhias as pétalas
E cobrias as minhas madeixas
Quando as minhas madeixas tremiam de desejo
Tu colhias as pétalas

Tu encostavas o teu rosto
À inquietude do meu peito
Quando eu
Não tinha mais nada para dizer
Tu encostavas o teu rosto
À inquietude do meu peito
E escutavas
O meu sangue que corria
A minha paixão lacrimejante que morria

Tu ouvias-me
Mas não me vias

Forough Farrokhzad

Se te pergunto o caminho,
falas-me das rochas que mortificam o dorso das montanhas
e do ranger da água no galope dos rios
e das nuvens que coroam as paisagens.

Contas que a noite geme nas fendas dos penhascos
porque as cidades apodrecem junto às margens
que o vento é um chicote que desaba os chapéus
que a terra treme, que o nevoeiro cega
e que as casas onde o medo se extinguia na longa bainha do
vestido da mãe cederam ao peso das mágoas dentro delas.

E, se assim mesmo quero ir, dizes que os meus passos
se perderiam no comprimento das sombras - que
não há mapas para os sonhos de quem morre de amor
e que os ramos debruçados dos muros em ruínas rasgariam
a carne – como um sorriso rasga o tecido de um rosto.

Se não me amas, porque me avisas da dor?

Maria do Rosário Pedreira

O QUE EU GOSTO





Gosto do garfo, apetece-me a idéia de que ele não precisa da faca para sobreviver. Não gosto de começar pelas verduras. Gosto de comer com pão. Não gosto de elevador. Gosto de escadas envidraçadas. Gosto de lápis mais do que canetas. Não gosto de parque. Gosto de praças esquecidas. Não gosto de sinais de trânsito. Gosto de pichações. Não gosto de passarelas. Gosto de calçadas largas, onde não me sinto pressionado a tomar uma decisão. Não gosto de quem finge voz infantil para falar com as crianças. Gosto de pedalar descalço como se fosse praia. Não gosto de chuva mentirosa, sem relâmpagos. Gosto de abraçar com efusão e fracassar despedidas. Não gosto de quem conversa dando tapinhas nos ombros. Gosto da sinceridade de um café. Não gosto de aperitivos. Gosto de escutar música para curvar a boca.

Não gosto de apresentações. Gosto de abrir vinho. Não gosto de terminar o vinho. Gosto quando desmarco um encontro para me encontrar por acidente. Não gosto de guarda-chuva. Gosto de livros com sobrecapa. Não gosto de nadar sozinho. Gosto de nadar sem raias para respirar. Não gosto de portas. Gosto de me falhar em janelas. Gosto de reparar primeiro os pés das pessoas, para calçar meus olhos e subir devagar. Não gosto de poltronas. Gosto de rede. Não gosto de colchão no chão.Gosto de água-furtada, abrir um piano, fechar o estojo de um violino. Não gosto de porões. Gosto de gavetas. Não gosto de armários.

Gosto de adormecer sem vontade. Não gosto de dormir cedo. Gosto de abrir cartas. Não gosto de procurar o CEP. Gosto de ter um lugar para sofrer escondido. Não gosto de chorar em público. Gosto de água com gás. Não gosto de trocar o gás. Gosto de repor as lâmpadas. Não gosto de lanternas. Gosto de velas e lamparinas, do clarão cansado. Não gosto de gente educada em excesso. Gosto do humor discreto. Não gosto de ser chamado pelas costas. Gosto quando trocam o meu nome. Não gosto de telegramas. Gosto de telefonemas longos. Não gosto de rodapés. Gosto de letra tremida. Não gosto de letras de fôrma. Gosto de guardanapo nos joelhos. Não gosto de mesas de plástico. Gosto da ironia. Não gosto do cinismo. Gosto de ver um filme pela metade. Não gosto de esperar os créditos finais. Gosto de chegar atrasado para ser pontual. Não gosto da tristeza. Gosto de gritar para as paredes.

Não gosto quando tem eco. Gosto de misturar as chaves. Não gosto de fotos em álbuns. Gosto de fotos soltas. Não gosto de assobiar. Gosto de acenar. Não gosto de palitos nos dentes. Gosto de mapas antigos. Não gosto de filas. Gosto de ler no trem. Não gosto de lembrar das senhas. Gosto de esquecer as dívidas. Não gosto de limpar as telhas. Gosto das escamas das casas. Não gosto de conferir os bolsos. Gosto da imperfeição. Não gosto do acúmulo. Gosto de inventar a letra quando estou cantando. Não gosto do travessão.

Gosto do ponto e vírgula.



Fabrício Carpinejar

sexta-feira, junho 11



Quem irá nos proteger?
Vanessa da Mata

Você conta por ai
Da nossa felicidade
Mas nem todos podem ouvir
Meu bem, meu bem, meu bem
Ouça o mau tom do alheio
Quem irá nos proteger?
Nosso amor é um caso sério
Só nós dois sabemos ser
Se não um amor assim tão raro
Pra tantos é tão caro
Pouca gente pode ter
Tão desejado
Meu amor, meu amor, meu amor
A inveja é a vontade de ter o que não é seu
O ciúme é o medo
De tomarem o que é meu
Não nos sirva a ninguém
Dê à ingenuidade adeus
Muitos querem se vestir
Do que não lhes fica bem
Sempre imitando o alheio
Maledicenciando em vão
Não nos sirva a ninguém
Dê à ingenuidade adeus
Príncipe sem um tostão
Sim. Era pra você a carta de amor
Que disseram ser para um terceiro
Preparei a nossa casa
Chame alguém para um café
Nosso amor é nossa cama
Não empreste a ninguém, não

terça-feira, maio 25




Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.


Pablo Neruda



Tudo o que eu faço
alguém em mim que eu desprezo
sempre acha o máximo.
Mal rabisco,
não dá mais para mudar nada.
Já é um clássico.


Leminski
Ninguém vem na estrada, disse Alice.





"Quem me dera ter os teus olhos",

respondeu o Rei agastado.




Para conseguir ver Ninguém!"


Lewis Carroll

Eu quero enfeitar você





Eu não quero este poder
Toma ele pra você
Eu só quero cantar, gozar e
Gastar da vida

Eu só quero um cafuné
Um cobertor de orelha fixo
Neste inverno tão rígido
Fingir que acredito em você

Eu quero enfeitar você

Eu só quero me perder
Eu não quero este poder
Chamar o sapo de príncipe
Comer você de manhã

E quando tudo parecer
Que está quase perdido
Que foi quase esquecido
Que não é mais minha maçã
Eu quero enfeitar você






Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho
Vivo tranqüilo, a liberdade é quem me faz carinho


Marisa Monte



Cortinas de seda

o vento entra

sem pedir licença


Leminski

Não falem
de um homem
que amou sensatamente,

falem de um homem
que amou demais.


William Shakespeare

sexta-feira, maio 21



Se eu tivesse as sedas bordadas do céu.
Com bainhas de luz de ouro e de prata.
As sedas azuis e sombrias e escuras.
Da noite e da luz e da meia-luz.
Deitava-as todas aos teus pés.

Mas eu sou pobre e só tenho os meus sonhos.
Deitei-os todos aos teus pés
Pisa com cuidado,
É nos meus sonhos que estás a pisar.


W. B. Yeats





segunda-feira, maio 17